"A comunidade dos justos é estrangeira na terra, ela viaja e vive de fé no exílio e na mortalidade" (Sérgio Buarque de Holanda).
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Auto de Natal
Ainda não conheci Auto de Natal mais belo que "Morte e vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. Segue a última estrofe:
—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Viena também é terra de Sissi
Lembra de Sissi “A Imperatriz”? Aquela do filme protagonizado pela atriz Romy Schneider? Pois bem, Sissi era Elisabete da Baviera, que se transoformou em imperatriz da Áustria em meados do século XIX ao se casar com o imperador Francisco José I. Era considerada a mulher mais bonita da Europa em seu tempo. O imperador trocou sua irmã Helena para se casar com ela. Infelizmente, a vida de Sissi não foi nenhum conto de fadas. A sogra, arquiduquesa Sofia, era realmente uma megera, e o imperador, embora apaixonado, era workaholic, ausente, muito conservador e absolutamente subserviente às regras sociais tão defendidas pela mãe. Ambos a obrigavam a viver em uma gaiola de ouro na sua adolescência. Dizem que o nome da primeira filha, homônimo da sogra, foi escolhido a contragosto de Sissi. Desafortunadamente, a criança morreu aos primeiros 2 anos de vida. Depois dela, ainda outros 3 filhos fizeram parte da família: Gisela, Rudolfo e Maria Valéria. Rudolfo, herdeiro do trono, foi encontrado morto - tudo indica que foi assassinado - ao lado da amante, o que aumentou ainda mais o desgosto de Sissi.
Sissi sofria de depressão por causa de seu casamento infeliz, devido às trágicas mortes, e por ser obrigada a manter certa distância dos filhos. Tinha uma rígida vida na corte de Habsburgo. Era culta, escrevia poesia, era rebelde, irreverente, e pouco a pouco se tornou obcecada pela sua beleza e boa forma. Com 1,73 de altura e 45 kg, quase anoréxica, além de comer pouco e fazer muitos exercícios físicos, adorava cavalgar. Tardava 3 horas penteando seus longuíssimos cabelos de mais de 1 metro e meio. Tinha uma empregada que era sua sósia e a substituía em alguns papéis (acenando para o povo diariamente da janela do palácio em algumas ocasiões, por exemplo). Apesar de ter uma forte personalidade, inevitavelmente, teve que se submeter às muitas exigências da monarquia. Deprimiu e teve a infelicidade de morrer muito cedo, aos 61 anos, vítima de um assassino italiano, anarquista, que tinha outro alvo, mas ao descobrir que Sissi estava em Genebra, creía que era uma personalidade com mais notoriedade.
Era uma figura muito carismática, mas como se negava muitas vezes a acompanhar o marido, e na maturidade viajava muito sozinha - dizem que tinha amantes - a Áustria se ressentia de seu comportamento, sobretudo a aristocracia.
Após sua morte, o que acontecia no Palácio se tornou público e o povo passou a adorá-la. O filme teve um papel importante ao torná-la mito. Hoje, sua imagem é explorada em quase tudo, há um museu que leva seu nome e abriga suas coisas, e o Palácio onde ela viveu é aberto ao público.
Sissi, a personagem do filme, é um ídolo para minha mãe. Me empenhei em conhecer a verdadeira história para contá-la, mas pensando melhor, as fantasias são normalmente mais interessantes do que a vida real. Talvez ela prefira ficar com a versão cinematográfica.
De Viena para o Mundo de lá
A população é extremamente acolhedora, pouco reativa, simpática e cosmopolita. Apesar de falar um dialeto alemão, o inglês é uma segunda língua muito BEM falada e ouvida pelas ruas. Todas as universidades são públicas e consideradas de excelente qualidade, atraindo inclusive muitos alemães (que privatizaram demais nos últimos tempos).
As guerras, no entanto, deixaram profundas marcas em seu povo e sua arquitetura. Como foi palco da primeira guerra mundial e ficou ao lado da Alemanha na segunda, possui relíquias seculares destroçadas que ainda levarão anos para serem restauradas por completo, sem falar nas conseqüências diretas econômicas, psicológicas e sociais. A Ópera, por exemplo, foi bombardeada pelos americanos que pensavam ser uma estação de trem. Nada comentam sobre a primeira guerra, já sobre a segunda, dizem que não sabiam dos verdadeiros planos de Hitler (a gente finge que acredita pra sair bem na foto). Um dos discursos históricos nazistas ocorreu no alto de um dos belíssimos edifícios do centro. Hoje, há uma praça dedicada aos judeus que foram vítimas da segunda grande guerra, com uma bandeira negra e um sepulcro de concreto no meio.
Viena tem um casco histórico lindíssimo, glamoroso e conservado, a parte mais antiga da cidade. Carruagens vendem percursos (40 euros o mais barato), há muitos quiosques pelas ruas vendendo vinho quente ou poncho, uma bebida a base de canela e vinho que lembra um pouco o conhaque – tomei vários, pois realmente tem o poder de esquentar. O rio Danúbio é uma atração à parte. Corta toda a cidade e é muito bonito de se ver. Ali, o Natal é comemorado em grande estilo. Músicas natalinas no melhor estilo clássico, feirinhas, linda iluminação, muita gente pelas ruas. Apesar disso, Viena é uma cidade muito pouco ruidosa, o que me faz estranhar muito. As pessoas falam baixo, o tráfico também é mais para o silencioso, e imagino que em época não festiva, seja um pouco monótona.
No Natal, as pessoas se soltam (numa comparação grosseira, é quase como o nosso carnaval vivido no interior das pequenas cidades). O veado é a mascote principal e as pessoas andam com chapéus com dois cornos, de forma muito natural e engraçada. Chapéus de papai Noel também são comuns ornamentando cabeças de turistas, principalmente europeus, e nativos. A cidade está repleta de feirinhas de Natal que são simplesmente maravilhosas. Comi todo tipo de lingüiça, cada uma mais deliciosa do que a outra, e muita mostarda. O frio (fazia perto de zero grau) ainda está ameno para padrões austríacos, no entanto, já incomoda bastante, principalmente quando o que há de mais interessante a ver está nas ruas do centro antigo, muito diverso e cheio de atrações.
Pela sua geografia, sofre atualmente mais influência econômica e social da migração do leste europeu do que Madri. Búlgaros, iugoslavos, etc. migram para ali em busca de melhores condições de sobrevivência. Quando saímos do centro histórico, lembramos claramente que ali há também muita pobreza. Os prédios “novos” da periferia não seguem o glamour clássico da cidade e necessitam de conservação.
No Belvedere, fui apreciar a exposição de Gustav Klimt e me encantei. É lamentável que hoje se faça tanta gravura replicando seus principais quadros, pois as cores, os traços, tudo é muito diferente do que vemos nos pratos, pôsteres, camisetas que ilustram suas obras mais famosas.
Bem, 5 a 7 dias bem vividos é o suficiente para conhecer os pontos turísticos principais da cidade e, apesar do frio dessa época do ano, vale muito a pena.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Esse papo já tá qualquer coisa, mas já é Natal em Madrid
O que é ciência?; os sistemas de informação de marketing ajudam em que medida (e como) às empresas?, a tecnologia NÃO é responsável por uma melhor performance na implantação de uma estratégia de CRM; quais modelos de predição de comportamento do consumidor?! Enfim, se você não é da área de marketing e não gosta do tema, deve estar voando. Mas estou às voltas com um monte de material, lendo e tentando escrever em espanhol, sem falar que o meu portunhol persiste em dar às caras em sala de aula. Además, me vejo bastante tentada em mandar tudo às favas e ir curtir Madri, que está muito, muito, muito fria (hoje, de 3 a 8 graus), pero, está linda, com suas luzes natalinas e programações próprias do período (click no título e em http://www.madridfera.com/).
Para mim, Natal sempre foi sinônimo de confraternização, família (um pouco de missa), verão e feriados. Aqui, é quase o oposto – o que não deixa de ser uma experiência diferenciada. Ao invés de Porto de Galinhas, Navaserrada e sua neve; ao invés de família, os coleguinhas de escola (e respectivos pais) do meu filho; em lugar de cerveja, violão e farra, estudar, estudar (e cuidar pra não gripar).
Mas, mudando de assunto (de novo), a mudança de estações é algo muito bonito de se ver. Mostrei fotos do final de semana retrasado: sol, estávamos com roupas nem tão quentes assim... já esta semana, pareço uma cebola cheia de capas, 3 roupas, uma por cima da outra, além de um abrigo por cima, o que me faz parecer absolutamente gorda em qualquer foto (por isso, não bloguei nenhuma), mas como dizem os espanhóis: “yo, caliente, que hable la gente”- não é exatamente isso, mas é quase. Ou seja, eu, quentinha, podem falar à vontade. Bueno, me voy. Tengo mais tareas para terminar. Foi meu presente de Papai Noel, afinal.
Que bom!
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Outono (quase inverno)
Pero, mira lo que nos espera:
domingo, 23 de novembro de 2008
Madrid que no pára
Primeiro vi este vídeo em madridmemata http://www.madridmemata.es/2008/11/madrid-en-tiempo-real/, e depois em http://timelapses.tv/. Compartilho aqui.
Passado, Presente, Futuro
"Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais. Tão marcados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: Rã fugida do charco, que saltou, E no salto que deu, quanto podia, O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei: Um rosto recomposto antes do fim, Um canto de batráquio, mesmo rouco, Uma vida que corra assim-assim."
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" (em http://www.citador.pt/)
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Doutorado de Marketing na Universidad Complutense de Madrid
Sin embargo, nova rotina e correria. Minhas aulas acontecem em 4 prédios em bairros diferentes. Significa que estou às voltas, aprendendo roteiros, já com um calhamaço de material para ler, e o que mais me aflige agora: escrever textos técnicos, papers, em espanhol (o pobre do meu professor de espanhol vai sofrer). A maioria das leituras é em inglês, as escritas em espanhol assim como as apresentações em classe, claro. Previsível.
Como se diz no Nordeste: ajoelhou, tem que rezar! Nova adaptação.
Constatei feliz que há um brasileiro em minha classe. Gentilmente já me forneceu algum material de uma das classes que não assisti devido às confusões ditas no início. Quando um dos professores, em sala, nos pediu para que nos apresentássemos e assim descobrimos a nossa nacionalidade, a sensação de alívio foi recíproca... Brasileiro se entende em qualquer lugar do mundo. O sorrisinho cúmplice foi gracioso e mútuo.
Ele acabou de chegar, há pouco mais de uma semana, está provisoriamente na casa da namorada que é brasileira-espanhola, e constatei como é mais fácil quando acontece assim: chegando e já imediatamente entrando numa rotina "normal" de estudos ou trabalho. Ele já me parece super adaptado e não passou metade do estresse que eu passei. O mesmo ocorre com uma amiga que chegou há pouco em Barcelona e me escreve animadíssima. Bem, espero que tudo isso me contagie. É um novo começo, bem melhor do que o primeiro (espero). A ver.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Peito Vazio
Depois de ouvir a lindíssima música de Cartola, dê duplo click no título deste post y já entenderás...
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Meditações de um Notívago II
Finalmente, recebi outra carta-email do meu pai. A transcrevo de novo na íntegra, na tentativa (vã?!) de fazê-lo um pouco mais presente no Mundo de cá. A ver, a lo mejor, a leer...
"Ser estrangeira, dispor de tempo para usufruir a estrangeirice, sem saudade, deve ser muito triste. Porém, se se sente saudade: confrange-se o coração, vem um torpor, uma letargia, como num fim de tarde fria; nos resta opor-lhe a esperança para conter este coração em pedaços. Voltamos a nos tranqüilizar, pois a custo sempre vencemos este estado de espírito. A vida volta à rotina, a saudade se renova, pois ela sempre deverá existir, pois quando saciamos a ausência com a presença do bem desejado, passando de um desejo potencial ao ato, se não pudéssemos renová-lo, seria a morte em vida. Quê a saudade seja cultuada para a nossa essência de vida e não para "morrer de tristeza", como disse um poeta. Louvemos a saudade como devemos louvar o amor: pois se este nasce e morre todo dia, para o deleite da espécie, é uma necessidade natural.. A estrangeira é romântica e sabe tirar da distância os frutos que ela oferece: saudade imensa. Um abraço e beijo para todos.
Aqui lembro algo que já li: Um disse: “Recordar é viver” e o outro respondeu: "Recordar não é viver porque é sentir saudade. E sentir saudade é morrer de tristeza."
Receba as meditações como idéias de um notívago. Porém, não vejo a hora de estarmos juntos e mandarmos a saudade pousar em outro lugar, pois juntos não estaremos precisando dela. Estará ela, saudade, como um chapéu pronto para quem dela precise, e longe de nós."
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Vanessa da Mata em Madrid
Vanessa da Mata em Madrid, hoje, Círculo de Bellas Artes, Talento Brasil, 21h30. Click no título e aqui http://www.talentobrasil.net/site/programacao e saiba mais.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Happy
Fomos assistir a Happy, um filme inglés muito legal, recomendado pelo meu professor de Espanhol. Recomendo a vocês também. É daqueles filmes simples, que entretem e nos deixam com a sensação de que a vida é bela e de que a felicidade até existe. Meio piegas a frase, reconheço. Mas o filme é de uma simplicidade, pureza e... o que mais dizer?! É um filme happy, ou melhor, é sobre alguém que enxerga as coisas de forma bastante diferenciada dos demais! A um certo momento pensei que o filme fosse uma apologia à negação, mas não é! Bem, vejam vocês e tirem suas próprias conclusões. Imperdíveis as cenas com o professor da auto-escola...
Pois bem. Este post no entanto não é sobre o filme, mas sobre o antes e o depois do filme. Fui assistí-lo com duas brasileiras que estão passando um tempinho aqui em Madri. Pois bem, chegamos 40 minutos antes do filme começar, e pedimos algo para comer num bar perto. Eu pedi um spagetti a bolonhesa para mim, e as outras duas, pediram coisa mais leve. Claro que o meu foi o que mais demorou. Uma delas foi comprar as entradas e nos esperar na porta do cinema para que não perdêssemos a seção. Após eu insistir com o garçon que estava demorando, que tinha um filme pra assistir, etc. e tal, o meu prato finalmente chegou, porém, apenas cinco minutos antes da seção começar (talvez eu tenha realmente sido muito otimista - ou gulosa - ao imaginar que me daria tempo de comer). Bueno, voltando. Agradeci e disse que não poderia comer o spagetti, pois a seção já ia começar. Honestamente, eu estava happy!, não estava aborrecida, nem com raiva, nem tão faminta assim. Lamentei ter que perder meus tão "suados" euros, mas fazer o quê?!, a lo mejor, haveria de perder um pouquinho de peso, poupando-me da gulodice. Bem, tudo tem seu lado positivo.
Mas o curioso não foi nada disso. O spagetti trazido era ao molho branco. Claro que não deixei de registrar o fato. Falei para o garçon que não comeria por falta de tempo, mas, a bem da verdade, o prato pedido não tinha sido aquele. Surpresa fiquei eu, no entanto, quando o distinto garçon olhou bem nos meus olhos e disse: - este espaguete É a bolonhesa! – Sorri. No lo podía crer. Realmente eu estava num momento happy. Esperava de tudo. Que ele dissesse que eu tivesse pedido com molho branco, que ele tinha entendido errado, que veria na cozinha o que havia ocorrido, mas nunca me ocorreu que ele fosse teimar comigo que AQUILO era bolonhesa!. Creio que você deve compreender o absurdo. Em qualquer lugar do mundo, bolonhesa É bolonhesa: tem um pouco de carne, é um pouco avermelhado, etc. Como poderia ser totalmente branco, sem carne, enfim, nada parecido!
A surpresa no entanto parece que foi dupla, minha com a cara de pau dele, e dele com a minha tranqüilidade, ou complacência ou resignação, como queira classificar. Paguei calmamente a conta, sorrindo, não sarcástica, não comi o bendito espaguete, pois não dava tempo mesmo, e quando estava de saída do bar, o garçon me disse (com pena): - quando acabar o filme, volte aqui que esquento pra senhora! Era o mínimo que ele poderia fazer, mas, em se tratando do mundo de cá, uma raridade, acreditem! Dito e feito, acabou o filme, voltamos as três. Pedi para ele esquentar o tal espaguete "a bolonhesa", sem discussões, e de repente me vem o SPAGUETE A BOLONHESA DE VERDADE, ou seja, ele não trouxe o espaguete ao molho branco. Me pediu desculpas e corrigiu o erro. Mais happy ainda fiquei eu. Fechei meu gestalt. Pena é que o spaguetti estava com um sabor no mínimo irreconhecível. Bem, nem tudo é perfeito. Mas como era uma tarde HAPPY, saboreei o final feliz, com todo gosto.
domingo, 9 de novembro de 2008
Estou em casa
"Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho. (...) a ação sobre as coisas, sobre o universo material, implica submissão a um objeto exterior, aceitação de uma lei estranha ao indivíduo. Ela não é exigida por Deus, nada acrescenta à sua glória e não aumenta nossa própria dignidade.(...) É compreensível assim que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobililante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. (...) O que entre eles predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.
Partindo desse ponto de vista, não sou mais estrangeira, estou em casa. UFA! Já não era sem tempo.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Por uma noite mais feliz
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Cássia. Sempre Ela
Nando. Sempre Ele. Temos ainda a graça da sua companhia aqui na terra. Já Ela, deve estar cantando para os anjos, agora.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Adriana Calca "rhotto" en Madrid
Não vejo a hora de ir ao show de Adriana Calcanhotto, amanhã, aqui em Madri. Quando fomos comprar o ingresso, não podemos deixar de gargalhar com a maneira como a chamam: "calca rhoto" (ou seja, ñ pronunciam o nh). A gargalhada póstuma à informação da compra-regalo, foi minha vingança depois de ser alvo dos tantos "¿como como?" que ouço diariamente quando não entendem quando eu falo meu portunhol. Nada como estar em casa.
Já falei neste blog o quanto nossa musicalidade e cultura são conhecidos e prestigiados por aqui. Bueno, ouvir uma boa música brasileira, ao vivo e a cores, ouvir nosso português, poder presenciar o show (e me orgulhar) de uma das maiores cantoras/compositoras dessa "nova" geração, ouvir um bom violão tocado maestralmente... é tudo!!!! Não vejo a hora. Depois do meu grande ídolo Cássia Eller, sempre fui fã de Adriana (dela e de outras tantas cantoras como Maria Betânia, Marisa Monte, Elis). Además, Madri está repleta de atrações brasileiras (ver links abaixo). Em outubro, por ocasião do Dia da Hispanidade, e do prêmio Dom Quijote de La Mancha concedido a Lula, deram o ar de sua graça Zezé de Camargo e Luciano, Daniela Mercury e Chico Buarque. Agora em novembro, Adriana, Vanessa da Mata, Edu Lobo são alguns dos que estarão no Mundo de cá. Não poderei ter o prazer de ver a todos, mas o de amanhã já está garantido. Depois conto como foi... A ver.
http://movidabrasilena.blogspot.com/2008/10/homenaje-chico-buarque-en-madrid.html
http://lacomunidad.elpais.com/movida-brasilena/2008/10/21/vanessa-da-mata-actuara-madrid-noviembre
http://movidabrasilena.blogspot.com/2008/10/festival-de-jazz-y-cine-brasileo-en.html
http://movidabrasilena.blogspot.com/2008/10/ruy-castro-visita-el-circulo-de-bellas.html
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Inquietude
Talvez dê pra perceber que estou um pouco inquieta. Quem acessa com freqüência, deve ter percebido que nas últimas semanas o blog tem adquirido cores, imagens e tons diferentes. Tudo ao contrário do que estudei sobre marcas. Essa é a grande vantagem de se ter um blog pessoal, você imprime a cor que quiser, de acordo com o seu bom (ou mau) humor, sem ter que dar satisfações. Bem... claro que me preocupo em dar satisfações, senão não estaria postando esta. É que não tem graça ter um blog que ninguém se interesse em ler, e sei que não tenho ajudado muito ao meu leitor, que deve se surpreender positiva (e negativamente) a cada novo acesso, nesses últimos tempos. Perdona. A ver se esse lay-out me agrada amanhã. Senão, já saberás...
sábado, 25 de outubro de 2008
Em boa companhia
Vinicius sempre viveu em muito boa companhia. E realmente, amigos são bienvenidos SEMPRE. Após tantos meses de solidão (ou semi), finalmente alguns amigos brasileiros estão vindo nos visitar. Interessante é que parece que resolveram vir em escala, vão uns, chegam outros. Ótima oportunidade para compartilhar experiências, revisitar Madri, conhecer alguns lugares até então ignorados, e passar um bom tempo papeando, bebericando, e nos divertindo. Realmente, com boas companhias, temos tido agradáveis momentos. Como dizem os espanhóis, estamos pasando muy bien. Meu filho, de 6 anos, tem reclamado um pouco já que a atenção a ele diminuiu consideravelmente, o que é natural. Tanto que ontem saiu com essa: "- Mamãe, eu não vou agüentar essa situação por muito tempo!", me deixando sem fala, como muitas outras vezes.
Bueno, dentre algumas coisas comuns a todos nós brasileiros, que vimos à Europa, chama sempre atenção: a conservação das vias públicas, a acessibilidade de quase TUDO - que inclui as pessoas com necessidades especiais, os monumentos sempre tão bem cuidados, o paisagismo ídem (segundo um amigo, "parece que todo dia tem um jardineiro retocando"), o transporte público de excelente qualidade, a segurança, a desigualdade social muito menor a olhos vistos, além de uma clara impressão de que os impostos são realmente revertidos, em grande medida, para criar o tão famoso bem-comum, promover uma melhor qualidade de vida para a população e tudo o mais que nos faz falta.
Algumas outras questões também valem registro: somos unânimes ao notar o alto índice de fumantes na cidade. Os bares sempre estão impregnados de fumaça, o que é lamentável, para eles, e principalmente para os não fumantes e ALÉRGICOS, como eu. Além disso, poucos restaurantes têm área reservada para fumantes, e quase nenhum proíbe o fumo.
Outra coisa, no mínimo, curiosa, é que além das pessoas dificilmente passarem muito tempo num determinado lugar, sempre estarem salindo de copas, de bar em bar, como "gatos madrileños", elas não curtem muito sentar-se. Nós, do Mundo de lá, leia-se Recife, quando entramos em qualquer bar, vamos logo procurando um lugarzinho para nos sentar, a não ser que estejamos numa boate ou em alguns outros locais específicos. Aqui, ficar em pé ao lado da barra ou balcão É O QUE HÁ. Foi justo quando estávamos conversando sobre isso, que resolvi registrar o fato aqui pra você, que lê meu blog. Chegamos a um bar, cheio de gente, a galera toda em pé, e as mesas vazias ao redor. Para ilustrar no blog, precisava tirar fotos. Diante de olhares desconfiados das pessoas desconhecidas do recinto, que naturalmente não se sentiram muito confortáveis ao ver uma estranha tirando fotos suas, uma amiga se predispôs a fingir que estava posando para mim, e assim me deu o pretexto para os tais clicks. Entre caras e bocas, segue o registro fotográfico da noite espanhola.