sábado, 26 de setembro de 2009

Estrangeirice. Ser estrangeiro é...

A estrangeirice de um amigo:
"O sentimento de não pertencimento independe dos objetos, da casa, do celular. Vem de outro lugar, daquele velho sentido da dialética de que um homem nunca mergulha duas vezes no mesmo rio. O triste é que no fim o sentimento é o de ser de lugar nenhum. Bate uma solidão...
Mas o bom é saber que é sempre possível voltar para o lugar de onde a gente veio de alma aberta. Quando isso acontecer, a sensação de estrangeirice logo passará, pois a identidade original é sempre mais forte do que as outras identidades que a gente pensa que vai agregando ao longo da vida. Apesar de todo o debate em torno da multiplicidade de personas que adquirimos ao longo da vida, justamente em função desse desencaixe, sempre acho que há algo de muito primário que nos fixa emocionalmente a um lugar. E é sempre pra ele que a gente deseja voltar nos momentos bons e ruins."

A estrangeirice de uma amiga:
"Ainda lembro da 1ª vez que fui de férias ao Brasil, depois de 1 ano e meio fora. Quando cheguei, me sentia perdida, como se tudo aquilo não fizesse mais parte de mim; lembro de como foi angustiante os 3 primeiros dias (...)entre idas e vindas já deu "mais ou menos" pra aceitar a idéia de que neste momento "este" é o meu mundo."

A estrangeirice de Mario Vargas Llosa, ou melhor, de "Ricardito", no livro "Travessuras da menina má", p. 125, 126:
"(...) Talvez porque sua solidão era parecida com a minha, embora fôssemos diferentes em muitas outras coisas. Ambos tínhamos decidido nunca voltaríamos a viver nos nossos países, pois tanto eu, no Peru, como ele, na Turquia, certamente nos sentiríamos mais estrangeiros que na França, onde, no entanto, também nos sentíamos forasteiros. E estávamos cientes de que jamais iríamos nos integrar no país que escolhemos para morar e que até nos concedeu um passaporte. ´- Não é culpa da França se nós dois continuamos sendo estrangeiros, querido. A culpa é nossa. Uma vocação, um destino (...)de estar sem estar, de ser mas não ser´".

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Ausência que não é Falta

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 20 de setembro de 2009

La Noche en Blanco 2009 e A Banda

Fomos a la noche en blanco madrilenha, ontem-hoje. Como sempre, me encanta! Muita gente na rua, de todas as tribos e crenças e idades. Ruas fechadas para os carros, metrôs funcionando até às 3 da manhã, programações de todo tipo. Tudo aberto, museus, salas especiais, Palácio Real, Bellas Artes, etc., e principalmente salas que em geral são fechadas ao público, tudo gratuito. Pena que, por ser apenas por uma noite, as filas são enormes. O mais inusitado da noite (foi muito engraçado ver), bandinhas de rua - essas bandas marciais que passeavam pelas cidades do interior brasileiro (quem viveu, se lembrará seguramente) e que ainda tocam em 7 de Setembro -, tocaram toda a noite pelas ruas de Madrid, seguidas por muitos, inclusive por nós por um curto percurso. Bateu a culpa por não ter levado meu filhote, que teria adorado!

Próximo aos museus, por sua vez, no Paseo del Prado, bailarinos ensinavam passos de dança através de um grande telão, desde street-dancing a ballet. A galera imitando na rua... foi uma onda. Em outros pontos, cine espanhol foram exibidos pelas ruas. Nos teatros, leituras de poemas e outras cositas más. No Barrio de las Letras, aonde costumavam ir Garcia Lorca, Lope de Vega, Cervantes, Calderón de la Barca e tantos outros nomes, desenhistas ouviam as histórias dos "callejeros" (pessoas que andam pelas ruas, ou seja, qualquer um de nós), como psicólogos de rua, e em troca faziam um desenho personalizado que pudesse representar um pouco da conversa. Os bares, movimentados, uma festa.  A temperatura amena, porém, sem muito frio... Enfim... mesmo que a cidade não estivesse tão bonita como no ano passado, e o astral, idem, valeu a pena.

Só pela nostalgia que bateu devido às bandas que animaram Madrid en La Noche en Blanco, segue "A Banda", de Chico, Festival de 1966. Imperdível.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Patrick Swayze morre de câncer

Nunca fui uma grande fã de Patrick Swayze, apesar de que gostava muito de vê-lo dançar. Entre os seus principais sucessos como "Dirty Dancing" y "Ghost", prefiro "Priscila, uma Rainha do Deserto". No entanto, poucas coisas são mais difíceis de se aceitar do que uma morte prematura. Na verdade, prematura ou não, a morte é bastante difícil de se aceitar seja em que idade for, pelo menos para  a maioria dos ocidentais, público em que me incluo. Quando ela é precedida de uma doença terminal parece ainda mais assustadora.

No entanto, o médico-psiquiatra David Servan-Schreiber (que descubriu um tumor no cérebro aos 32 anos, e superou todas as estatísticas de sobrevivência apresentadas em seu caso),  escreveu em seu excelente livro "Anticâncer: Prevenir e vencer usando nossas defesas naturais", p. 217, uma passagem que gosto particularmente, dentre outras tantas:

"Ouve-se freqüentemente dizer de uma pessoa fulminada por um infarto inesperado que ele teve uma "bela morte". Contudo, é um fim que nos priva de toda possibilidade de preparação, de troca, de transmissão, bem como de uma ocasião para dar um fecho às relações incompletas. Não é a que desejo para mim. Hoje, a palavra "câncer" não é mais sinônimo de morte. Mas ela evoca sua sombra. Para muitos pacientes, como foi para mim, essa sombra é a oportunidade de refletir sobre a própria vida, sobre o que se quer fazer dela. é a oportunidade para começar a viver de maneira a poder olhar pra trás, no dia de nossa morte, com dignidade, com integridade. Que nesse dia se possa dizer adeus com um sentimento de paz."
Em outra passagem, ele fala de um paciente, também médico e acometido por um linfoma, p. 210-212:
"Denis era inteiramente ateu(...) mas descobriu aquilo que chamaria mais tarde de alma. A forma como cada uma de suas escolhas, cada uma de suas ações ao longo da vida, tinham sido impressas para sempre no destino do mundo através de suas repercussões infinitas. Como a borboleta proverbial da teoria do caos, cujo batimento de asas influenciam os furacões da América, Denis tomava consciência da importância de cada pensamento, de cada uma de suas palavras. E ainda dos gestos de amor dirigidos aos outros ou à terra. Ele o via agora todos como a semente de uma colheita eterna. Tinha o sentimento, pela primeira vez, de viver cada instante. De abençoar o céu que lhe acariciava a pele, assim como a água que refrescava sua garganta. O mesmo sol que já tinha dado vida aos dinossauros. A mesma água que eles tinham bebido também. Que havia feito parte de suas células antes de se tornar outra vez nuvens, depois oceanos. "De onde vem essa gratidão, a mim que vou morrer?" E depois também o vento, o vento no seu rosto. "Dentro em breve eu serei o vento, a água e o sol. E principalmente a centelha nos olhos de um homem de quem eu cuidei da mãe ou curei o filho. Então, é isso a minha alma. O que eu fiz de mim, que já vive em toda parte e viverá sempre."
Nos últimos dias, quase nao falava mais. Morreu em um final de tarde. Um de seus amigos lhe massageava os pés. De manhã, sobre a minha mesa, eu achei uma nota do meu assistente: "Denis M.: CDR." Um eufemismo usual no hospital para "cessou de respirar". E eu me perguntei se ele não teria justamente começado."

sábado, 12 de setembro de 2009

Rubem Alves e a Gaiola de Prender Idéias



"Inspiraçao é quando a gente nao sabe de onde a idéia vem."

"O pensamento experimental não deseja persuadir, mas inspirar."

"Gaiola de prender idéias: um caderninho." ... ou um blog!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

La Noche en Blanco 2009

Falta uma semana para a La Noche en Blanco, lembra? Quem não sabe ou não se lembra, pode também ver aqui como foi a "minha" no ano passado. Adorei! Tenho que começar a me programar, procurar uma "canguru" para ficar com meu filho, essas coisas que no Mundo de cá sempre custam, em todos os sentidos. Quem está em Madri e nunca foi, vale a pena conferir, será no dia 19 de setembro. Recomendo!

sábado, 5 de setembro de 2009

Brasil x Argentina

 (Foto do ig.com.br)

É muito bom se classificar para a Copa do Mundo. É muito bom ganhar. Mas melhor, melhor, melhor mesmo é ganhar da Argentina. Brasil 3 x Argentina 1, no jogo de classificação para a Copa. Ah, e o melhor é quando estamos vendo o jogo com dois amigos argentinos em casa, gente finíssima, educadíssimos quando a Argentina fez o gol, apesar dos meus protestos de que ficassem à vontade. Já eu, gritando como louca nas oportunidades brasileiras. Só para esclarecer, aqui são 4h30 e vou dormir com o sabor da vitória. Perguntei a eles se precisavam de algo já que também vão dormir aqui em casa, e um deles me respondeu: - ¿tienes un poquito de alegría? - tentei me conter, mas me ocorreu dizer: - tenho de sobra. Fazer o qué?!

Mapa de los Sonidos de Tokio



No Cine Renoir, um dos poucos de Madri onde se pode ver filmes de excelente qualidade em idioma original, legendado (os filmes aqui são todos dublados para o espanhol, resquício do franquismo), assistimos a um filme lindíssimo, Mapa de los Sonidos de Tokio. Um drama sentimental da diretora catalã Isabel Coixet. Filmado em Tokio e em Barcelona, com personagens protagonizados pelo espanhol Sergi López e a japonesa Rinko Kikuchi, que dá um show de interpretação, o filme é arte pura, muito poético. A solidão das personagens, o choque entre as culturas oriental e ocidental, "os sons" da natureza, das pessoas comendo, tudo tem um apuro estético lindíssimo. A relação entre o "casal" protagonista é no mínimo... silenciosa e... fora dos padrões. Vale a pena conferir.