"A comunidade dos justos é estrangeira na terra, ela viaja e vive de fé no exílio e na mortalidade" (Sérgio Buarque de Holanda).
sábado, 31 de janeiro de 2009
Mais uma da estrangeira
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
El sosiego de espíritu
Existem alguns acontecimentos que representam o grande e tão falado ponto de inflexão, aquele momento ímpar, que sem ter nem pra qué, APARECE, surge e se impõe. O momento da descoberta, enfim. A percepção deste ponto de inflexão que seguramente você não sabe ainda do que se trata, foi motivada por um simples hecho – feito, resolvi mudar a imagem da área de trabalho do meu computador, aquela imagem que assim que a gente liga o micro, está lá. É verdade que alguns não têm imagem, só um colorido e tal, mas... você entendeu. Bem, voltando. Já há algum tempo eu estava meio cansada da linda paisagem de Maragogi ornamentando a primeira tela do micro. Antes de Maragogi, já foram parar ali fotos de Noronha, Boa Viagem, tartaruga, golfinho, filho na praia, etc. Só que, de volta ao meu Mundo de cá, resolvi mudar essa imagem e escolhi justo as “torres gêmeas” de Madri. Bem, decisão tomada displicentemente, sem drama. E aí está o grande ponto de inflexão que explicarei mais à frente. Paciência, please., afinal, você chegou a ler até aqui, não vai morrer na praia, né?
Bueno, primeiro, sobre a foto: esta foto foi tirada há alguns meses, saindo da rodoviária de Chamartín, quando presenciei com uns amigos um belíssimo pôr do sol “enfeitando” os imponentes prédios. Não titubeei, foto na certa. Lindíssimas, as “torres” de arquitetura pós-moderna, exuberantes, são agora a minha porta de entrada para o mundo navegável da Internet sempre que resolvo estar online. Ao vivo e a cores, os prédios destoam um pouco da paisagem madrileña, é verdade, onde as construções são baixas e de estilo antigo, em sua maioria. Sobretudo a parte mais turística de Madri, que lembra o Velho Mundo, com seus edifícios de estilos clássicos, góticos, neoclássicos, renacentistas, e assim vai. Bom, contextualizado o tema, agora vem o susto e o ponto de inflexão percebido, finalmente.
Ontem, ao ligar o computador, me assustei com a troca. Cadê o mar, o sol, o MEU mundo? Sim, Espanha também tem mar, e muito, porém, NÃO onde vivo, NÃO O MMMMEEEUUUU marzão, etc. Bem, me dei conta imediatamente de que estava com o computador certo, que aquela foto tinha sido escolhida por mim há menos de dois dias e que, sim!, a escolha foi consciente e, por que não dizer, feliz!
Durante meses: falando, pensando e utilizando ícones sempre brasileiros predominantemente pernambucanos, aquela mudança tinha que significar alguma coisa. Comecei a observar a minha linguagem quando respondo sobre a Espanha aos curiosos brasileiros, quando falo sobre a minha vida no Mundo de cá, o tom usado, o jeito, as roupas, enfim, percebi que estou mais light, mais tranqüila mesmo com o meu novo estilo de vida, quase um pouquinho espanhola, o que não nega EM NADA a minha brasilidade.
Me dei conta de que ENFIM estou adaptada, seja lá o que isto significa exatamente. Me sinto menos estrangeira do que antes, e mais disposta hoje a vivenciar experiências não mais como uma alienígena que aterrissou em Madri. Enfim, um pouco de PAZ. Ou, como o relato de Saramago, es cierto que busco obstinadamente el sosiego de espíritu y, por ahora, tal vez lo tenga encontrado. Bom saber.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Tá valendo a viagem
domingo, 25 de janeiro de 2009
2008, o ano que terminou, e uma viagem
Também fiz minha fezinha por lá: rompí de branco, pasé un vistazo no meu mapa astral e coisas assim. Ou seja, mesmo as emoçoes ainda estando meio congeladas pelo frio de Madri, nao escapei de preservar alguns rituais que esquentam o coração e encheram de promessas esta criatura que vos escreve.
Agora, de volta a Madri, só me resta nostalgicamente dar finalmente o meu adeus a 2008 e tentar recomeçar uma nova etapa. Para o ano que terminou, só posso desejar que não morra de melancolia e tristeza por nao fazer mais parte do nosso tempo. É, 2008, tudo passa!... não só você, acredite. Tudo passa.
Clichês bregas me emocionam
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Perdão pelo silêncio. Acontece
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Auto de Natal
Ainda não conheci Auto de Natal mais belo que "Morte e vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. Segue a última estrofe:
—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Viena também é terra de Sissi
Lembra de Sissi “A Imperatriz”? Aquela do filme protagonizado pela atriz Romy Schneider? Pois bem, Sissi era Elisabete da Baviera, que se transoformou em imperatriz da Áustria em meados do século XIX ao se casar com o imperador Francisco José I. Era considerada a mulher mais bonita da Europa em seu tempo. O imperador trocou sua irmã Helena para se casar com ela. Infelizmente, a vida de Sissi não foi nenhum conto de fadas. A sogra, arquiduquesa Sofia, era realmente uma megera, e o imperador, embora apaixonado, era workaholic, ausente, muito conservador e absolutamente subserviente às regras sociais tão defendidas pela mãe. Ambos a obrigavam a viver em uma gaiola de ouro na sua adolescência. Dizem que o nome da primeira filha, homônimo da sogra, foi escolhido a contragosto de Sissi. Desafortunadamente, a criança morreu aos primeiros 2 anos de vida. Depois dela, ainda outros 3 filhos fizeram parte da família: Gisela, Rudolfo e Maria Valéria. Rudolfo, herdeiro do trono, foi encontrado morto - tudo indica que foi assassinado - ao lado da amante, o que aumentou ainda mais o desgosto de Sissi.
Sissi sofria de depressão por causa de seu casamento infeliz, devido às trágicas mortes, e por ser obrigada a manter certa distância dos filhos. Tinha uma rígida vida na corte de Habsburgo. Era culta, escrevia poesia, era rebelde, irreverente, e pouco a pouco se tornou obcecada pela sua beleza e boa forma. Com 1,73 de altura e 45 kg, quase anoréxica, além de comer pouco e fazer muitos exercícios físicos, adorava cavalgar. Tardava 3 horas penteando seus longuíssimos cabelos de mais de 1 metro e meio. Tinha uma empregada que era sua sósia e a substituía em alguns papéis (acenando para o povo diariamente da janela do palácio em algumas ocasiões, por exemplo). Apesar de ter uma forte personalidade, inevitavelmente, teve que se submeter às muitas exigências da monarquia. Deprimiu e teve a infelicidade de morrer muito cedo, aos 61 anos, vítima de um assassino italiano, anarquista, que tinha outro alvo, mas ao descobrir que Sissi estava em Genebra, creía que era uma personalidade com mais notoriedade.
Era uma figura muito carismática, mas como se negava muitas vezes a acompanhar o marido, e na maturidade viajava muito sozinha - dizem que tinha amantes - a Áustria se ressentia de seu comportamento, sobretudo a aristocracia.
Após sua morte, o que acontecia no Palácio se tornou público e o povo passou a adorá-la. O filme teve um papel importante ao torná-la mito. Hoje, sua imagem é explorada em quase tudo, há um museu que leva seu nome e abriga suas coisas, e o Palácio onde ela viveu é aberto ao público.
Sissi, a personagem do filme, é um ídolo para minha mãe. Me empenhei em conhecer a verdadeira história para contá-la, mas pensando melhor, as fantasias são normalmente mais interessantes do que a vida real. Talvez ela prefira ficar com a versão cinematográfica.
De Viena para o Mundo de lá
A população é extremamente acolhedora, pouco reativa, simpática e cosmopolita. Apesar de falar um dialeto alemão, o inglês é uma segunda língua muito BEM falada e ouvida pelas ruas. Todas as universidades são públicas e consideradas de excelente qualidade, atraindo inclusive muitos alemães (que privatizaram demais nos últimos tempos).
As guerras, no entanto, deixaram profundas marcas em seu povo e sua arquitetura. Como foi palco da primeira guerra mundial e ficou ao lado da Alemanha na segunda, possui relíquias seculares destroçadas que ainda levarão anos para serem restauradas por completo, sem falar nas conseqüências diretas econômicas, psicológicas e sociais. A Ópera, por exemplo, foi bombardeada pelos americanos que pensavam ser uma estação de trem. Nada comentam sobre a primeira guerra, já sobre a segunda, dizem que não sabiam dos verdadeiros planos de Hitler (a gente finge que acredita pra sair bem na foto). Um dos discursos históricos nazistas ocorreu no alto de um dos belíssimos edifícios do centro. Hoje, há uma praça dedicada aos judeus que foram vítimas da segunda grande guerra, com uma bandeira negra e um sepulcro de concreto no meio.
Viena tem um casco histórico lindíssimo, glamoroso e conservado, a parte mais antiga da cidade. Carruagens vendem percursos (40 euros o mais barato), há muitos quiosques pelas ruas vendendo vinho quente ou poncho, uma bebida a base de canela e vinho que lembra um pouco o conhaque – tomei vários, pois realmente tem o poder de esquentar. O rio Danúbio é uma atração à parte. Corta toda a cidade e é muito bonito de se ver. Ali, o Natal é comemorado em grande estilo. Músicas natalinas no melhor estilo clássico, feirinhas, linda iluminação, muita gente pelas ruas. Apesar disso, Viena é uma cidade muito pouco ruidosa, o que me faz estranhar muito. As pessoas falam baixo, o tráfico também é mais para o silencioso, e imagino que em época não festiva, seja um pouco monótona.
No Natal, as pessoas se soltam (numa comparação grosseira, é quase como o nosso carnaval vivido no interior das pequenas cidades). O veado é a mascote principal e as pessoas andam com chapéus com dois cornos, de forma muito natural e engraçada. Chapéus de papai Noel também são comuns ornamentando cabeças de turistas, principalmente europeus, e nativos. A cidade está repleta de feirinhas de Natal que são simplesmente maravilhosas. Comi todo tipo de lingüiça, cada uma mais deliciosa do que a outra, e muita mostarda. O frio (fazia perto de zero grau) ainda está ameno para padrões austríacos, no entanto, já incomoda bastante, principalmente quando o que há de mais interessante a ver está nas ruas do centro antigo, muito diverso e cheio de atrações.
Pela sua geografia, sofre atualmente mais influência econômica e social da migração do leste europeu do que Madri. Búlgaros, iugoslavos, etc. migram para ali em busca de melhores condições de sobrevivência. Quando saímos do centro histórico, lembramos claramente que ali há também muita pobreza. Os prédios “novos” da periferia não seguem o glamour clássico da cidade e necessitam de conservação.
No Belvedere, fui apreciar a exposição de Gustav Klimt e me encantei. É lamentável que hoje se faça tanta gravura replicando seus principais quadros, pois as cores, os traços, tudo é muito diferente do que vemos nos pratos, pôsteres, camisetas que ilustram suas obras mais famosas.
Bem, 5 a 7 dias bem vividos é o suficiente para conhecer os pontos turísticos principais da cidade e, apesar do frio dessa época do ano, vale muito a pena.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Esse papo já tá qualquer coisa, mas já é Natal em Madrid
O que é ciência?; os sistemas de informação de marketing ajudam em que medida (e como) às empresas?, a tecnologia NÃO é responsável por uma melhor performance na implantação de uma estratégia de CRM; quais modelos de predição de comportamento do consumidor?! Enfim, se você não é da área de marketing e não gosta do tema, deve estar voando. Mas estou às voltas com um monte de material, lendo e tentando escrever em espanhol, sem falar que o meu portunhol persiste em dar às caras em sala de aula. Además, me vejo bastante tentada em mandar tudo às favas e ir curtir Madri, que está muito, muito, muito fria (hoje, de 3 a 8 graus), pero, está linda, com suas luzes natalinas e programações próprias do período (click no título e em http://www.madridfera.com/).
Para mim, Natal sempre foi sinônimo de confraternização, família (um pouco de missa), verão e feriados. Aqui, é quase o oposto – o que não deixa de ser uma experiência diferenciada. Ao invés de Porto de Galinhas, Navaserrada e sua neve; ao invés de família, os coleguinhas de escola (e respectivos pais) do meu filho; em lugar de cerveja, violão e farra, estudar, estudar (e cuidar pra não gripar).
Mas, mudando de assunto (de novo), a mudança de estações é algo muito bonito de se ver. Mostrei fotos do final de semana retrasado: sol, estávamos com roupas nem tão quentes assim... já esta semana, pareço uma cebola cheia de capas, 3 roupas, uma por cima da outra, além de um abrigo por cima, o que me faz parecer absolutamente gorda em qualquer foto (por isso, não bloguei nenhuma), mas como dizem os espanhóis: “yo, caliente, que hable la gente”- não é exatamente isso, mas é quase. Ou seja, eu, quentinha, podem falar à vontade. Bueno, me voy. Tengo mais tareas para terminar. Foi meu presente de Papai Noel, afinal.
Que bom!
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Outono (quase inverno)
Pero, mira lo que nos espera:
domingo, 23 de novembro de 2008
Madrid que no pára
Primeiro vi este vídeo em madridmemata http://www.madridmemata.es/2008/11/madrid-en-tiempo-real/, e depois em http://timelapses.tv/. Compartilho aqui.
Passado, Presente, Futuro
"Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais. Tão marcados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: Rã fugida do charco, que saltou, E no salto que deu, quanto podia, O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei: Um rosto recomposto antes do fim, Um canto de batráquio, mesmo rouco, Uma vida que corra assim-assim."
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" (em http://www.citador.pt/)
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Doutorado de Marketing na Universidad Complutense de Madrid
Sin embargo, nova rotina e correria. Minhas aulas acontecem em 4 prédios em bairros diferentes. Significa que estou às voltas, aprendendo roteiros, já com um calhamaço de material para ler, e o que mais me aflige agora: escrever textos técnicos, papers, em espanhol (o pobre do meu professor de espanhol vai sofrer). A maioria das leituras é em inglês, as escritas em espanhol assim como as apresentações em classe, claro. Previsível.
Como se diz no Nordeste: ajoelhou, tem que rezar! Nova adaptação.
Constatei feliz que há um brasileiro em minha classe. Gentilmente já me forneceu algum material de uma das classes que não assisti devido às confusões ditas no início. Quando um dos professores, em sala, nos pediu para que nos apresentássemos e assim descobrimos a nossa nacionalidade, a sensação de alívio foi recíproca... Brasileiro se entende em qualquer lugar do mundo. O sorrisinho cúmplice foi gracioso e mútuo.
Ele acabou de chegar, há pouco mais de uma semana, está provisoriamente na casa da namorada que é brasileira-espanhola, e constatei como é mais fácil quando acontece assim: chegando e já imediatamente entrando numa rotina "normal" de estudos ou trabalho. Ele já me parece super adaptado e não passou metade do estresse que eu passei. O mesmo ocorre com uma amiga que chegou há pouco em Barcelona e me escreve animadíssima. Bem, espero que tudo isso me contagie. É um novo começo, bem melhor do que o primeiro (espero). A ver.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Peito Vazio
Depois de ouvir a lindíssima música de Cartola, dê duplo click no título deste post y já entenderás...
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Meditações de um Notívago II
Finalmente, recebi outra carta-email do meu pai. A transcrevo de novo na íntegra, na tentativa (vã?!) de fazê-lo um pouco mais presente no Mundo de cá. A ver, a lo mejor, a leer...
"Ser estrangeira, dispor de tempo para usufruir a estrangeirice, sem saudade, deve ser muito triste. Porém, se se sente saudade: confrange-se o coração, vem um torpor, uma letargia, como num fim de tarde fria; nos resta opor-lhe a esperança para conter este coração em pedaços. Voltamos a nos tranqüilizar, pois a custo sempre vencemos este estado de espírito. A vida volta à rotina, a saudade se renova, pois ela sempre deverá existir, pois quando saciamos a ausência com a presença do bem desejado, passando de um desejo potencial ao ato, se não pudéssemos renová-lo, seria a morte em vida. Quê a saudade seja cultuada para a nossa essência de vida e não para "morrer de tristeza", como disse um poeta. Louvemos a saudade como devemos louvar o amor: pois se este nasce e morre todo dia, para o deleite da espécie, é uma necessidade natural.. A estrangeira é romântica e sabe tirar da distância os frutos que ela oferece: saudade imensa. Um abraço e beijo para todos.
Aqui lembro algo que já li: Um disse: “Recordar é viver” e o outro respondeu: "Recordar não é viver porque é sentir saudade. E sentir saudade é morrer de tristeza."
Receba as meditações como idéias de um notívago. Porém, não vejo a hora de estarmos juntos e mandarmos a saudade pousar em outro lugar, pois juntos não estaremos precisando dela. Estará ela, saudade, como um chapéu pronto para quem dela precise, e longe de nós."
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Vanessa da Mata em Madrid
Vanessa da Mata em Madrid, hoje, Círculo de Bellas Artes, Talento Brasil, 21h30. Click no título e aqui http://www.talentobrasil.net/site/programacao e saiba mais.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Happy
Fomos assistir a Happy, um filme inglés muito legal, recomendado pelo meu professor de Espanhol. Recomendo a vocês também. É daqueles filmes simples, que entretem e nos deixam com a sensação de que a vida é bela e de que a felicidade até existe. Meio piegas a frase, reconheço. Mas o filme é de uma simplicidade, pureza e... o que mais dizer?! É um filme happy, ou melhor, é sobre alguém que enxerga as coisas de forma bastante diferenciada dos demais! A um certo momento pensei que o filme fosse uma apologia à negação, mas não é! Bem, vejam vocês e tirem suas próprias conclusões. Imperdíveis as cenas com o professor da auto-escola...
Pois bem. Este post no entanto não é sobre o filme, mas sobre o antes e o depois do filme. Fui assistí-lo com duas brasileiras que estão passando um tempinho aqui em Madri. Pois bem, chegamos 40 minutos antes do filme começar, e pedimos algo para comer num bar perto. Eu pedi um spagetti a bolonhesa para mim, e as outras duas, pediram coisa mais leve. Claro que o meu foi o que mais demorou. Uma delas foi comprar as entradas e nos esperar na porta do cinema para que não perdêssemos a seção. Após eu insistir com o garçon que estava demorando, que tinha um filme pra assistir, etc. e tal, o meu prato finalmente chegou, porém, apenas cinco minutos antes da seção começar (talvez eu tenha realmente sido muito otimista - ou gulosa - ao imaginar que me daria tempo de comer). Bueno, voltando. Agradeci e disse que não poderia comer o spagetti, pois a seção já ia começar. Honestamente, eu estava happy!, não estava aborrecida, nem com raiva, nem tão faminta assim. Lamentei ter que perder meus tão "suados" euros, mas fazer o quê?!, a lo mejor, haveria de perder um pouquinho de peso, poupando-me da gulodice. Bem, tudo tem seu lado positivo.
Mas o curioso não foi nada disso. O spagetti trazido era ao molho branco. Claro que não deixei de registrar o fato. Falei para o garçon que não comeria por falta de tempo, mas, a bem da verdade, o prato pedido não tinha sido aquele. Surpresa fiquei eu, no entanto, quando o distinto garçon olhou bem nos meus olhos e disse: - este espaguete É a bolonhesa! – Sorri. No lo podía crer. Realmente eu estava num momento happy. Esperava de tudo. Que ele dissesse que eu tivesse pedido com molho branco, que ele tinha entendido errado, que veria na cozinha o que havia ocorrido, mas nunca me ocorreu que ele fosse teimar comigo que AQUILO era bolonhesa!. Creio que você deve compreender o absurdo. Em qualquer lugar do mundo, bolonhesa É bolonhesa: tem um pouco de carne, é um pouco avermelhado, etc. Como poderia ser totalmente branco, sem carne, enfim, nada parecido!
A surpresa no entanto parece que foi dupla, minha com a cara de pau dele, e dele com a minha tranqüilidade, ou complacência ou resignação, como queira classificar. Paguei calmamente a conta, sorrindo, não sarcástica, não comi o bendito espaguete, pois não dava tempo mesmo, e quando estava de saída do bar, o garçon me disse (com pena): - quando acabar o filme, volte aqui que esquento pra senhora! Era o mínimo que ele poderia fazer, mas, em se tratando do mundo de cá, uma raridade, acreditem! Dito e feito, acabou o filme, voltamos as três. Pedi para ele esquentar o tal espaguete "a bolonhesa", sem discussões, e de repente me vem o SPAGUETE A BOLONHESA DE VERDADE, ou seja, ele não trouxe o espaguete ao molho branco. Me pediu desculpas e corrigiu o erro. Mais happy ainda fiquei eu. Fechei meu gestalt. Pena é que o spaguetti estava com um sabor no mínimo irreconhecível. Bem, nem tudo é perfeito. Mas como era uma tarde HAPPY, saboreei o final feliz, com todo gosto.
domingo, 9 de novembro de 2008
Estou em casa
"Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho. (...) a ação sobre as coisas, sobre o universo material, implica submissão a um objeto exterior, aceitação de uma lei estranha ao indivíduo. Ela não é exigida por Deus, nada acrescenta à sua glória e não aumenta nossa própria dignidade.(...) É compreensível assim que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobililante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. (...) O que entre eles predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.
Partindo desse ponto de vista, não sou mais estrangeira, estou em casa. UFA! Já não era sem tempo.