sábado, 31 de janeiro de 2009

Mais uma da estrangeira

Quando justo estava comemorando a minha capacidade (tardia) de adaptação, uma infeliz de uma camarera - garçonete - acaba com toda minha auto-estima de estrangeira semi-adaptada, justo agora em que eu estava me sentindo uma "quase española". Ao lhe pedir uma sugestão de prato, ela me disse que só gostava de um deles de toda a Carta, portanto, não era a mais indicada a me sugerir nada (bem, despreparadinha, segundo registrou oportunamente o meu marido, mas, pelo menos, honesta). Isto não foi nada, o interessante foi que a gentil atendente disse que ia resolver o meu problema, e me chega com o mesmo cardápio escrito em INGLÊS. Opções: 1. ela achava que eu não tinha conseguido ler o cardápio em espanhol e por isto pedi a sugestão, 2. percebeu o meu sotaque obviamente não espanhol, 3. as duas primeiras opções são verdadeiras, 4. a figurinha era meio sem-noção. Bueno, como a maioria dos garçons daquí também não são nativos, a pobre moça no fim só quis me ajudar. Quase que pedia o prato em inglês mesmo, mas deixei pra lá. Despreparadinha, a coitada, mas gentil.... Fazer o quê? Justo depois de ONTEM, dia em que minha aula de espanhol foi absolutamente dedicada à interpretação de textos técnicos em marketing, o que me fizeram me sentir a expert no idioma...! É. Pra terminar, a gentil, mas despreparadinha moça, não deve ter entendido o pedido de um simples café... Até hoje...Um dia, quem sabe ele chega. Talvez na próxima ida ao excelente lugar, de garçons gentis (o que é raríssimo), mas despreparadinhos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

El sosiego de espíritu


Existem alguns acontecimentos que representam o grande e tão falado ponto de inflexão, aquele momento ímpar, que sem ter nem pra qué, APARECE, surge e se impõe. O momento da descoberta, enfim. A percepção deste ponto de inflexão que seguramente você não sabe ainda do que se trata, foi motivada por um simples hecho – feito, resolvi mudar a imagem da área de trabalho do meu computador, aquela imagem que assim que a gente liga o micro, está lá. É verdade que alguns não têm imagem, só um colorido e tal, mas... você entendeu. Bem, voltando. Já há algum tempo eu estava meio cansada da linda paisagem de Maragogi ornamentando a primeira tela do micro. Antes de Maragogi, já foram parar ali fotos de Noronha, Boa Viagem, tartaruga, golfinho, filho na praia, etc. Só que, de volta ao meu Mundo de cá, resolvi mudar essa imagem e escolhi justo as “torres gêmeas” de Madri. Bem, decisão tomada displicentemente, sem drama. E aí está o grande ponto de inflexão que explicarei mais à frente. Paciência, please., afinal, você chegou a ler até aqui, não vai morrer na praia, né?

Bueno, primeiro, sobre a foto: esta foto foi tirada há alguns meses, saindo da rodoviária de Chamartín, quando presenciei com uns amigos um belíssimo pôr do sol “enfeitando” os imponentes prédios. Não titubeei, foto na certa. Lindíssimas, as “torres” de arquitetura pós-moderna, exuberantes, são agora a minha porta de entrada para o mundo navegável da Internet sempre que resolvo estar online. Ao vivo e a cores, os prédios destoam um pouco da paisagem madrileña, é verdade, onde as construções são baixas e de estilo antigo, em sua maioria. Sobretudo a parte mais turística de Madri, que lembra o Velho Mundo, com seus edifícios de estilos clássicos, góticos, neoclássicos, renacentistas, e assim vai. Bom, contextualizado o tema, agora vem o susto e o ponto de inflexão percebido, finalmente.

Ontem, ao ligar o computador, me assustei com a troca. Cadê o mar, o sol, o MEU mundo? Sim, Espanha também tem mar, e muito, porém, NÃO onde vivo, NÃO O MMMMEEEUUUU marzão, etc. Bem, me dei conta imediatamente de que estava com o computador certo, que aquela foto tinha sido escolhida por mim há menos de dois dias e que, sim!, a escolha foi consciente e, por que não dizer, feliz!

Durante meses: falando, pensando e utilizando ícones sempre brasileiros predominantemente pernambucanos, aquela mudança tinha que significar alguma coisa. Comecei a observar a minha linguagem quando respondo sobre a Espanha aos curiosos brasileiros, quando falo sobre a minha vida no Mundo de cá, o tom usado, o jeito, as roupas, enfim, percebi que estou mais light, mais tranqüila mesmo com o meu novo estilo de vida, quase um pouquinho espanhola, o que não nega EM NADA a minha brasilidade.

Me dei conta de que ENFIM estou adaptada, seja lá o que isto significa exatamente. Me sinto menos estrangeira do que antes, e mais disposta hoje a vivenciar experiências não mais como uma alienígena que aterrissou em Madri. Enfim, um pouco de PAZ. Ou, como o relato de Saramago, es cierto que busco obstinadamente el sosiego de espíritu y, por ahora, tal vez lo tenga encontrado. Bom saber.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Tá valendo a viagem

Avaliando o ano meio mal acabado, leia-se: o ano que mal acabou, ou o ano que acabou mal – a Faixa de Gaza e o Boi Não Sei das Quantas, da novela das oito brasileira, que o digam – não pude deixar de registrar a satisfação em ter criado este blog. Foi um dos acontecimentos marcantes pra mim. Voltar a escrever, familiarizar-me mais com a Internet (sempre fui meio off line), registrar alguns acontecimentos, fotos, músicas… tornar tudo isso público, enfim, me faz lembrar da minha adolescência quando mantinha um diário onde relatava o que se passava. Adorava ilustrá-lo, colá-lo, era o máximo, a minha terapia. Pois é, voltei no tempo, só que mais tecnológica. Me encanta compartilhar as minhas percepções da Espanha, que possui um passado interessantísimo, cidades belíssimas e uma cultura tão peculiar. Imagino que à medida em que eu vá me adaptando, me aprofunde mais em outros temas ainda ñ abordados aqui. As pretensões com o blog sempre foram “desabafar”, segundo Vinicius ou Ferreira Goulart, ñ sei bem, quando vc escreve, joga o sentimento pro outro, pronto!, se livra dele e ya está. Também passo a criar cumplicidade com outros que se identificam com o que relato, ou simplesmente querem saber como estou. Não o enquadraria portanto num blog turístico nem de longe - para conhecer Madri, sem dúvida, outros sao mais competentes e ricos, como Todo Madrid, ou Es Madrid no Madriz, etc. Por isto, que defino "Mundo de cá" como um diário de bordo, mais adequado. Agora, à minha mala, agreguei as experiências de uma estudante de doutorado da UCM, o que promete vir a ser bem interessante, espero! Bem, bem-vindo a bordo, 2009 promete e tá valendo a viagem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

2008, o ano que terminou, e uma viagem

Se não fosse pela minha tão esperada ida ao Mundo de lá, leia-se Recife, o rito de passagem da virada do ano, que sempre me encantou, teria passado em brancas nuvens. Apesar das confraternizações na minha rápida passagem pelo Brasil, ficou a impressão de que tudo caminha como sempre, no seu ritmo próprio, e que nao temos mais razoes para acreditar que AGORA SIM tudo vai ser diferente. Meio óbvio.
Também fiz minha fezinha por lá: rompí de branco, pasé un vistazo no meu mapa astral e coisas assim. Ou seja, mesmo as emoçoes ainda estando meio congeladas pelo frio de Madri, nao escapei de preservar alguns rituais que esquentam o coração e encheram de promessas esta criatura que vos escreve.
Agora, de volta a Madri, só me resta nostalgicamente dar finalmente o meu adeus a 2008 e tentar recomeçar uma nova etapa. Para o ano que terminou, só posso desejar que não morra de melancolia e tristeza por nao fazer mais parte do nosso tempo. É, 2008, tudo passa!... não só você, acredite. Tudo passa.

Clichês bregas me emocionam

Clichês me emocionam, fazer o quê? Quem, em sendo brasileiro, nunca rompeu o ano ao som de “este ano, quero paz no meu coração…” Nao cheguei a ouvi-la neste fim de ano, mas inevitavelmente, a música bem que veio à mente. Devo confessar que ficou um vazio,então. Talvez por isto. Será?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Perdão pelo silêncio. Acontece

Estive off line durante um tempo. Estou no Mundo de lá e um pouco melancólica. Bueno, amanhã volto a Madri e espero voltar com ganas para voltar a escrever. Perdona. Acontece.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Auto de Natal



Ainda não conheci Auto de Natal mais belo que "Morte e vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. Segue a última estrofe:

—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta

que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

De volta a Madri para meu primeiro Natal no Mundo de cá

http://cuaderno.josesaramago.org/

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Viena também é terra de Sissi



Lembra de Sissi “A Imperatriz”? Aquela do filme protagonizado pela atriz Romy Schneider? Pois bem, Sissi era Elisabete da Baviera, que se transoformou em imperatriz da Áustria em meados do século XIX ao se casar com o imperador Francisco José I. Era considerada a mulher mais bonita da Europa em seu tempo. O imperador trocou sua irmã Helena para se casar com ela. Infelizmente, a vida de Sissi não foi nenhum conto de fadas. A sogra, arquiduquesa Sofia, era realmente uma megera, e o imperador, embora apaixonado, era workaholic, ausente, muito conservador e absolutamente subserviente às regras sociais tão defendidas pela mãe. Ambos a obrigavam a viver em uma gaiola de ouro na sua adolescência. Dizem que o nome da primeira filha, homônimo da sogra, foi escolhido a contragosto de Sissi. Desafortunadamente, a criança morreu aos primeiros 2 anos de vida. Depois dela, ainda outros 3 filhos fizeram parte da família: Gisela, Rudolfo e Maria Valéria. Rudolfo, herdeiro do trono, foi encontrado morto - tudo indica que foi assassinado - ao lado da amante, o que aumentou ainda mais o desgosto de Sissi.

Sissi sofria de depressão por causa de seu casamento infeliz, devido às trágicas mortes, e por ser obrigada a manter certa distância dos filhos. Tinha uma rígida vida na corte de Habsburgo. Era culta, escrevia poesia, era rebelde, irreverente, e pouco a pouco se tornou obcecada pela sua beleza e boa forma. Com 1,73 de altura e 45 kg, quase anoréxica, além de comer pouco e fazer muitos exercícios físicos, adorava cavalgar. Tardava 3 horas penteando seus longuíssimos cabelos de mais de 1 metro e meio. Tinha uma empregada que era sua sósia e a substituía em alguns papéis (acenando para o povo diariamente da janela do palácio em algumas ocasiões, por exemplo). Apesar de ter uma forte personalidade, inevitavelmente, teve que se submeter às muitas exigências da monarquia. Deprimiu e teve a infelicidade de morrer muito cedo, aos 61 anos, vítima de um assassino italiano, anarquista, que tinha outro alvo, mas ao descobrir que Sissi estava em Genebra, creía que era uma personalidade com mais notoriedade.

Era uma figura muito carismática, mas como se negava muitas vezes a acompanhar o marido, e na maturidade viajava muito sozinha - dizem que tinha amantes - a Áustria se ressentia de seu comportamento, sobretudo a aristocracia.

Após sua morte, o que acontecia no Palácio se tornou público e o povo passou a adorá-la. O filme teve um papel importante ao torná-la mito. Hoje, sua imagem é explorada em quase tudo, há um museu que leva seu nome e abriga suas coisas, e o Palácio onde ela viveu é aberto ao público.

Sissi, a personagem do filme, é um ídolo para minha mãe. Me empenhei em conhecer a verdadeira história para contá-la, mas pensando melhor, as fantasias são normalmente mais interessantes do que a vida real. Talvez ela prefira ficar com a versão cinematográfica.





















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De Viena para o Mundo de lá
















Estive em Viena, uma cidade lindíssima. De avião, são 2h30 de Madri. Meu marido foi a trabalho e segui a tiracolo sem pestanejar. Cidade da música clássica, terra de Mozart (nasceu em outra cidade austríaca, mas viveu quase toda sua vida em Viena) e Strauss. Foi também onde Beethoven, Freud e tantos outros fizeram fama.

A população é extremamente acolhedora, pouco reativa, simpática e cosmopolita. Apesar de falar um dialeto alemão, o inglês é uma segunda língua muito BEM falada e ouvida pelas ruas. Todas as universidades são públicas e consideradas de excelente qualidade, atraindo inclusive muitos alemães (que privatizaram demais nos últimos tempos).

As guerras, no entanto, deixaram profundas marcas em seu povo e sua arquitetura. Como foi palco da primeira guerra mundial e ficou ao lado da Alemanha na segunda, possui relíquias seculares destroçadas que ainda levarão anos para serem restauradas por completo, sem falar nas conseqüências diretas econômicas, psicológicas e sociais. A Ópera, por exemplo, foi bombardeada pelos americanos que pensavam ser uma estação de trem. Nada comentam sobre a primeira guerra, já sobre a segunda, dizem que não sabiam dos verdadeiros planos de Hitler (a gente finge que acredita pra sair bem na foto). Um dos discursos históricos nazistas ocorreu no alto de um dos belíssimos edifícios do centro. Hoje, há uma praça dedicada aos judeus que foram vítimas da segunda grande guerra, com uma bandeira negra e um sepulcro de concreto no meio.

Viena tem um casco histórico lindíssimo, glamoroso e conservado, a parte mais antiga da cidade. Carruagens vendem percursos (40 euros o mais barato), há muitos quiosques pelas ruas vendendo vinho quente ou poncho, uma bebida a base de canela e vinho que lembra um pouco o conhaque – tomei vários, pois realmente tem o poder de esquentar. O rio Danúbio é uma atração à parte. Corta toda a cidade e é muito bonito de se ver. Ali, o Natal é comemorado em grande estilo. Músicas natalinas no melhor estilo clássico, feirinhas, linda iluminação, muita gente pelas ruas. Apesar disso, Viena é uma cidade muito pouco ruidosa, o que me faz estranhar muito. As pessoas falam baixo, o tráfico também é mais para o silencioso, e imagino que em época não festiva, seja um pouco monótona.

No Natal, as pessoas se soltam (numa comparação grosseira, é quase como o nosso carnaval vivido no interior das pequenas cidades). O veado é a mascote principal e as pessoas andam com chapéus com dois cornos, de forma muito natural e engraçada. Chapéus de papai Noel também são comuns ornamentando cabeças de turistas, principalmente europeus, e nativos. A cidade está repleta de feirinhas de Natal que são simplesmente maravilhosas. Comi todo tipo de lingüiça, cada uma mais deliciosa do que a outra, e muita mostarda. O frio (fazia perto de zero grau) ainda está ameno para padrões austríacos, no entanto, já incomoda bastante, principalmente quando o que há de mais interessante a ver está nas ruas do centro antigo, muito diverso e cheio de atrações.

Pela sua geografia, sofre atualmente mais influência econômica e social da migração do leste europeu do que Madri. Búlgaros, iugoslavos, etc. migram para ali em busca de melhores condições de sobrevivência. Quando saímos do centro histórico, lembramos claramente que ali há também muita pobreza. Os prédios “novos” da periferia não seguem o glamour clássico da cidade e necessitam de conservação.

No Belvedere, fui apreciar a exposição de Gustav Klimt e me encantei. É lamentável que hoje se faça tanta gravura replicando seus principais quadros, pois as cores, os traços, tudo é muito diferente do que vemos nos pratos, pôsteres, camisetas que ilustram suas obras mais famosas.

Bem, 5 a 7 dias bem vividos é o suficiente para conhecer os pontos turísticos principais da cidade e, apesar do frio dessa época do ano, vale muito a pena.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Esse papo já tá qualquer coisa, mas já é Natal em Madrid



O que é ciência?; os sistemas de informação de marketing ajudam em que medida (e como) às empresas?, a tecnologia NÃO é responsável por uma melhor performance na implantação de uma estratégia de CRM; quais modelos de predição de comportamento do consumidor?! Enfim, se você não é da área de marketing e não gosta do tema, deve estar voando. Mas estou às voltas com um monte de material, lendo e tentando escrever em espanhol, sem falar que o meu portunhol persiste em dar às caras em sala de aula. Además, me vejo bastante tentada em mandar tudo às favas e ir curtir Madri, que está muito, muito, muito fria (hoje, de 3 a 8 graus), pero, está linda, com suas luzes natalinas e programações próprias do período (click no título e em http://www.madridfera.com/).

Para mim, Natal sempre foi sinônimo de confraternização, família (um pouco de missa), verão e feriados. Aqui, é quase o oposto – o que não deixa de ser uma experiência diferenciada. Ao invés de Porto de Galinhas, Navaserrada e sua neve; ao invés de família, os coleguinhas de escola (e respectivos pais) do meu filho; em lugar de cerveja, violão e farra, estudar, estudar (e cuidar pra não gripar).

Mas, mudando de assunto (de novo), a mudança de estações é algo muito bonito de se ver. Mostrei fotos do final de semana retrasado: sol, estávamos com roupas nem tão quentes assim... já esta semana, pareço uma cebola cheia de capas, 3 roupas, uma por cima da outra, além de um abrigo por cima, o que me faz parecer absolutamente gorda em qualquer foto (por isso, não bloguei nenhuma), mas como dizem os espanhóis: “yo, caliente, que hable la gente”- não é exatamente isso, mas é quase. Ou seja, eu, quentinha, podem falar à vontade. Bueno, me voy. Tengo mais tareas para terminar. Foi meu presente de Papai Noel, afinal.
Que bom!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Outono (quase inverno)

Por agora, desfrutamos o outono:



























Pero, mira lo que nos espera:




Bueno, falta pouco!(vídeo enviado por Lúcia à Claudinha, que me enviou. Ambas viram no http://www.orapois.com.br/humor/piadas/videos-engracados/tirando-a-neve-do-carro_id36264_p0_mc0.html)

domingo, 23 de novembro de 2008

Madrid que no pára


Primeiro vi este vídeo em madridmemata http://www.madridmemata.es/2008/11/madrid-en-tiempo-real/, e depois em http://timelapses.tv/. Compartilho aqui.


Passado, Presente, Futuro
"Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais. Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: Rã fugida do charco, que saltou, E no salto que deu, quanto podia, O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei: Um rosto recomposto antes do fim, Um canto de batráquio, mesmo rouco, Uma vida que corra assim-assim."

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" (em http://www.citador.pt/)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Doutorado de Marketing na Universidad Complutense de Madrid










UFA! Finalmente, comecei meu doutorado. Aconteceu de tudo. O processo foi absolutamente doloroso, burocrático, moroso, confuso, e poderia colocar uma série de adjetivos aqui e não sei se conseguiria fazer jus ao que representou realmente. Bueno, de qualquer forma, já não era sem tempo. Ah! Quando chegou a bendita carta dando o ok para a minha matrícula, estava justo chegando da balada com alguns amigos brasileiros, e foi emocionante poder compartilhar com eles (registro em fotos). Logo após o recebimento da carta, um brinde e o velho e bom skype para comunicar ao Brasil o acontecimento.
Sin embargo, nova rotina e correria. Minhas aulas acontecem em 4 prédios em bairros diferentes. Significa que estou às voltas, aprendendo roteiros, já com um calhamaço de material para ler, e o que mais me aflige agora: escrever textos técnicos, papers, em espanhol (o pobre do meu professor de espanhol vai sofrer). A maioria das leituras é em inglês, as escritas em espanhol assim como as apresentações em classe, claro. Previsível.
Como se diz no Nordeste: ajoelhou, tem que rezar! Nova adaptação.
Constatei feliz que há um brasileiro em minha classe. Gentilmente já me forneceu algum material de uma das classes que não assisti devido às confusões ditas no início. Quando um dos professores, em sala, nos pediu para que nos apresentássemos e assim descobrimos a nossa nacionalidade, a sensação de alívio foi recíproca... Brasileiro se entende em qualquer lugar do mundo. O sorrisinho cúmplice foi gracioso e mútuo.
Ele acabou de chegar, há pouco mais de uma semana, está provisoriamente na casa da namorada que é brasileira-espanhola, e constatei como é mais fácil quando acontece assim: chegando e já imediatamente entrando numa rotina "normal" de estudos ou trabalho. Ele já me parece super adaptado e não passou metade do estresse que eu passei. O mesmo ocorre com uma amiga que chegou há pouco em Barcelona e me escreve animadíssima. Bem, espero que tudo isso me contagie. É um novo começo, bem melhor do que o primeiro (espero). A ver.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Peito Vazio

Depois de ouvir a lindíssima música de Cartola, dê duplo click no título deste post y já entenderás...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Meditações de um Notívago II



Finalmente, recebi outra carta-email do meu pai. A transcrevo de novo na íntegra, na tentativa (vã?!) de fazê-lo um pouco mais presente no Mundo de cá. A ver, a lo mejor, a leer...

"Ser estrangeira, dispor de tempo para usufruir a estrangeirice, sem saudade, deve ser muito triste. Porém, se se sente saudade: confrange-se o coração, vem um torpor, uma letargia, como num fim de tarde fria; nos resta opor-lhe a esperança para conter este coração em pedaços. Voltamos a nos tranqüilizar, pois a custo sempre vencemos este estado de espírito. A vida volta à rotina, a saudade se renova, pois ela sempre deverá existir, pois quando saciamos a ausência com a presença do bem desejado, passando de um desejo potencial ao ato, se não pudéssemos renová-lo, seria a morte em vida. Quê a saudade seja cultuada para a nossa essência de vida e não para "morrer de tristeza", como disse um poeta. Louvemos a saudade como devemos louvar o amor: pois se este nasce e morre todo dia, para o deleite da espécie, é uma necessidade natural.. A estrangeira é romântica e sabe tirar da distância os frutos que ela oferece: saudade imensa. Um abraço e beijo para todos.
Aqui lembro algo que já li: Um disse: “Recordar é viver” e o outro respondeu: "Recordar não é viver porque é sentir saudade. E sentir saudade é morrer de tristeza."

Receba as meditações como idéias de um notívago. Porém, não vejo a hora de estarmos juntos e mandarmos a saudade pousar em outro lugar, pois juntos não estaremos precisando dela. Estará ela, saudade, como um chapéu pronto para quem dela precise, e longe de nós."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Vanessa da Mata em Madrid




Vanessa da Mata em Madrid, hoje, Círculo de Bellas Artes, Talento Brasil, 21h30. Click no título e aqui http://www.talentobrasil.net/site/programacao e saiba mais.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Happy




Fomos assistir a Happy, um filme inglés muito legal, recomendado pelo meu professor de Espanhol. Recomendo a vocês também. É daqueles filmes simples, que entretem e nos deixam com a sensação de que a vida é bela e de que a felicidade até existe. Meio piegas a frase, reconheço. Mas o filme é de uma simplicidade, pureza e... o que mais dizer?! É um filme happy, ou melhor, é sobre alguém que enxerga as coisas de forma bastante diferenciada dos demais! A um certo momento pensei que o filme fosse uma apologia à negação, mas não é! Bem, vejam vocês e tirem suas próprias conclusões. Imperdíveis as cenas com o professor da auto-escola...

Pois bem. Este post no entanto não é sobre o filme, mas sobre o antes e o depois do filme. Fui assistí-lo com duas brasileiras que estão passando um tempinho aqui em Madri. Pois bem, chegamos 40 minutos antes do filme começar, e pedimos algo para comer num bar perto. Eu pedi um spagetti a bolonhesa para mim, e as outras duas, pediram coisa mais leve. Claro que o meu foi o que mais demorou. Uma delas foi comprar as entradas e nos esperar na porta do cinema para que não perdêssemos a seção. Após eu insistir com o garçon que estava demorando, que tinha um filme pra assistir, etc. e tal, o meu prato finalmente chegou, porém, apenas cinco minutos antes da seção começar (talvez eu tenha realmente sido muito otimista - ou gulosa - ao imaginar que me daria tempo de comer). Bueno, voltando. Agradeci e disse que não poderia comer o spagetti, pois a seção já ia começar. Honestamente, eu estava happy!, não estava aborrecida, nem com raiva, nem tão faminta assim. Lamentei ter que perder meus tão "suados" euros, mas fazer o quê?!, a lo mejor, haveria de perder um pouquinho de peso, poupando-me da gulodice. Bem, tudo tem seu lado positivo.

Mas o curioso não foi nada disso. O spagetti trazido era ao molho branco. Claro que não deixei de registrar o fato. Falei para o garçon que não comeria por falta de tempo, mas, a bem da verdade, o prato pedido não tinha sido aquele. Surpresa fiquei eu, no entanto, quando o distinto garçon olhou bem nos meus olhos e disse: - este espaguete É a bolonhesa! – Sorri. No lo podía crer. Realmente eu estava num momento happy. Esperava de tudo. Que ele dissesse que eu tivesse pedido com molho branco, que ele tinha entendido errado, que veria na cozinha o que havia ocorrido, mas nunca me ocorreu que ele fosse teimar comigo que AQUILO era bolonhesa!. Creio que você deve compreender o absurdo. Em qualquer lugar do mundo, bolonhesa É bolonhesa: tem um pouco de carne, é um pouco avermelhado, etc. Como poderia ser totalmente branco, sem carne, enfim, nada parecido!

A surpresa no entanto parece que foi dupla, minha com a cara de pau dele, e dele com a minha tranqüilidade, ou complacência ou resignação, como queira classificar. Paguei calmamente a conta, sorrindo, não sarcástica, não comi o bendito espaguete, pois não dava tempo mesmo, e quando estava de saída do bar, o garçon me disse (com pena): - quando acabar o filme, volte aqui que esquento pra senhora! Era o mínimo que ele poderia fazer, mas, em se tratando do mundo de cá, uma raridade, acreditem! Dito e feito, acabou o filme, voltamos as três. Pedi para ele esquentar o tal espaguete "a bolonhesa", sem discussões, e de repente me vem o SPAGUETE A BOLONHESA DE VERDADE, ou seja, ele não trouxe o espaguete ao molho branco. Me pediu desculpas e corrigiu o erro. Mais happy ainda fiquei eu. Fechei meu gestalt. Pena é que o spaguetti estava com um sabor no mínimo irreconhecível. Bem, nem tudo é perfeito. Mas como era uma tarde HAPPY, saboreei o final feliz, com todo gosto.

domingo, 9 de novembro de 2008

Estou em casa

A mim sempre me pareceu estranho o desapego do Mundo de cá ao trabalho, não digo ao dinheiro em si, mas ao trabalho mesmo. Não resta a menor dúvida de que nós, do Mundo de lá, somos um pouco escravos dele, temos muito conscientes os valores americanos de que devemos prestar um serviço da melhor qualidade custe o que custar, de que “exemplo de dignidade” é sair muito cedo, se matar de trabalhar e voltar para casa com a sensação do dever cumprido, “o trabalho dignifica o homem”. Pois bem, salvando-se algumas exceções, a visão geral aqui é que somos pobres coitados ali. E somos mesmo. O espanhol não se expõe a certos trabalhos, sobretudo aos mecânicos e braçais, os evita claramente. Em números de horas pode até ser que equivala, do ponto de vista legal, mas produtividade, profissionalismo não são levados muito a sério. Toda generalização é meio burra, é verdade, e vou recair nela para expor meu ponto de vista, mas seguramente sinto que os princípios de modernidade comercial são encarados de forma muito relativa no Mundo de cá. Vejamos. Após as férias de verão, que são tiradas generalizadamente, até o padre na missa comentou sobre a depressão pós-férias que se deu conta quando desceu do avião ao voltar da praia. Aliás, depressão pós-férias é algo comentado em todos os jornais locais El País, El Mundo, ABC, Público. É impressionante. Impressionante mesmo foi quando meu marido precisava comprar um presente de casamento e, depois de muito sacrifício, conseguiu chegar 5 minutos antes da loja fechar. O distinto cavalheiro, dono da birosca, disse-lhe que não poderia lhe atender porque não lhe daria tempo, fazer tudo em 5 minutos (pasmem!). E era o dono. O mesmo aconteceu comigo ao tentar cortar o cabelo aqui perto e chegar 10 minutos antes da Peluqueria fechar....! “Lo siento, está muito perto de fechar e não poderemos lhe atender. Volte amanhã.” Increíble. Comecei uma reflexão: minhas coisas do Brasil tardaram 7 meses a chegar, meu interfone não funciona desde que cheguei pois vez ou outra vem alguém dizendo que não há problema com ele, o problema é que não colocamos ele corretamente no gancho. Passei um mês para conseguir colocar meu filho numa escola. Comprei um carro usado que necessita de uma chave de segurança para trocar o pneu (que na hora da compra, não percebemos que não estava nele), e até agora espero a danada da chave. E ainda falamos dos nossos baianos! Tinha uma moça que vinha passar ferro nas roupas aqui em casa, e certo dia pedi para que ela comprasse cebola no supermercado ao lado. Ela me respondeu: Lo siento, mas está chovendo! Eu fiquei pasma, mas ao invés de discutir, preferi que ela permanecesse passando a minha roupa assim mesmo... melhor ela do que eu, prefiro ficar sem cebola. As inúmeras vezes que fui à universidade em busca de informações e voltei de mãos abanando... enfim! Exemplos do tipo, temos centenas, é que a maldita aculturação vai permitindo que não nos surpreendamos mais com nada. Estava lendo Sérgio Buarque de Holanda e já percebi que citarei ele bastante por aqui. Ele disse:

"Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho. (...) a ação sobre as coisas, sobre o universo material, implica submissão a um objeto exterior, aceitação de uma lei estranha ao indivíduo. Ela não é exigida por Deus, nada acrescenta à sua glória e não aumenta nossa própria dignidade.(...) É compreensível assim que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobililante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. (...) O que entre eles predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.

Partindo desse ponto de vista, não sou mais estrangeira, estou em casa. UFA! Já não era sem tempo.