segunda-feira, 16 de junho de 2008

Tô chegando......

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MÃE: BOTA ÁGUA NO FEIJÃO, QUE EU TÔ CHEGANDO...............!!!!!!!!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=A-NRPRoCwsI

Ser estrangeira é estar sempre faltando um pedaço... tô voltando

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Tô voltando…. por um tempinho curto, mas tô voltando... Ai, que ansiedade! Foi tudo muito bom, foi tudo muito bem, mas realmente, nada melhor do que voltar para casa!!!!!!!!!!!!!!! Como estará tudo? e todos? É verdade que tenho tido notícias, mas às vezes dá aquele friozinho na barriga, um medo de que a sua ausência (no caso, minha), não tenha sido tão sentida ou doída assim, e aí, a gente fica com um sentimento de "desimportância"... É que a vida continua! e continuou para todos, para os demais que ali ficaram, e para mim inclusive, felizmente. De qualquer forma, é muito bom estar de volta.

Bueno, de repente me bateu a nostalgia. Ser estrangeira é também “estar sempre faltando um pedaço”, então é também inevitável a saudade por antecipação de outros daqui: de Urano, já citado nesse blog, de José Maria, meu professor de espanhol, e de Amaya, mãe de uma coleguinha do meu filho. Esses dois últimos são novidades pra vocês e merecem reverências especiais.

As minhas aulas de espanhol são não só uma oportunidade de aprender o idioma, mas também uma excelente maneira de descobrir mais sobre a Espanha, sobre os espanhóis, o mundo, a Amazônia (pasmem, meu professor sabe mais do que eu sobre o assunto! olhe que eu sei, viu! - tive que aprender, né?!), história, e tudo o mais de interessante, no presente - passado - ou futuro do indicativo, subjuntivo e em todas as formas gramaticais que tenho direito. As aulas são ótimas, a pessoa, maravilhosa, um amigo da família, já podemos dizer, motivo do nosso primeiro almoço com um “nativo”, preparado com todo o carinho por minha sogra quando estava por aqui. Tudo pode ser tema de aula e debate caloroso, ultimamente, regada a algumas xícaras de café que, a duras penas, finalmente consegui fazer a contento – depois de 4 meses, já era tempo, não?

Já Amaya...bem, sobre ela não há muito o que dizer, só sentir. O seu carinho, acolhimento, disponibilidade, interesse em nos conhecer e fazer-se conhecer... Quando vou deixar Iago na escola: ou me chama pra um café, ou me dá carona, ou me convida pra algum outro programa, e sempre se preocupa em saber como estou e se preciso de alguma coisa. Um anjo da guarda, não resta dúvidas. Uma figura boníssima, gentil, carinhosa e muito sensível. Desejo a ela tudo de bom, e à sua linda filha, muito fofinha, Elba.

Sentirei saudades deles... e assim, mesmo com a felicidade que me acompanha na expectativa da partida para o Mundo de lá, sinto uma tristeza pelo que deixo aqui. Apesar das dificuldades encontradas no princípio, posteriormente também encontrei carinho e acolhimento. Bem, deles só estarei distante um “mesinho”, já dos queridos que deixei no Brasil, bem mais tempo, por ora. Então, resta-me aproveitar a felicidade do reencontro com o Mundo de lá. E que o Mundo de cá me aguarde, espero eu, tão saudoso quanto eu o deixarei.

Madrid es infinita en nuestra imaginación y diminuta en nuestra realidad

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Quando li a frase Madrid es infinita en nuestra imaginación y diminuta en nuestra realidad, escrita por Eduardo Verdú no primeiro mês da minha estada aqui, pensei: “- por quê? O que queria dizer realmente...?” Agora, após 4 meses, ela me parece cristalina e absolutamente verdadeira. Quando pensamos em Madri, sobretudo em morar aqui por um tempo, imaginamos poder aproveitar a noite madrileña, assistir a várias exposições, visitar a todos os museus, desfrutar das inúmeras opções culturais que, diga-se de passagem, existem para todos os gostos e tribos. Em tese, a cidade não pára! Bueno, parece, no entanto, que, seja para mim que sou estrangeira, ou para o escritor madrileño, a rotina se impõe de todas as formas. No caso dele, trabalho – casa – levar e pegar crianças na escola – dar atenção à esposa – aproveitar o domingo para descansar - ver um filme no cinema, e tudo o que quase todos nós, rélis mortais de classe média, fazemos, seja aqui, no Brasil ou na China. É verdade que uns vão à praia, outros ao parque, uns isso, outros aquilo... é verdade também que os estilos de vida são diferentes. Mas também é verdade que o cotidiano acaba por se impôr de tal forma que o glamour antes imaginado se esvai diante das necessidades da vida cotidiana. No entanto, não posso me queixar. Estamos muito bem instalados, fomos a várias peças de teatro, alguns museus, saímos algumas noites como los gatos madrileños, aprendemos muito desde o español à vida a la européa; li bastante, assisti a alguns eventos de marketing, conheci um pouco de Madrid para los niños - crianças - , fiz alguns poucos porém bons amigos..., enfim, aproveitamos bem!, dentro do possível. Mesmo assim, fica uma sensação de "quero mais" e uma lista enorme de interesses e objetivos ainda ñ alcançados. Talvez por isso tenha me identificado tanto com a descrição de Verdú. Vou passar um mês no Brasil e quem sabe na volta, uma vez mais adaptada, sabendo me comunicar melhor e conhecendo mais o que me espera aqui, Madri passe a ser mais próxima ao imaginado. Verdú talvez duvide, mas posso aproveitar mais, apesar da rotina que se impõe no nosso dia-a-dia. Há ainda muito a ser explorado e...bueno... amanhã hay de ser otro dia. Felizmente.




http://br.youtube.com/watch?v=WBwo5MzB7io

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Somos campeões do Brasil

Saudações Rubro Negras!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Sem palavras.....

As fotos são antigas, mas tá valendo. Faz de conta que estou aí, comemorando com vocês!


Com o Sport
Eternamente estarei
Pois rubro-negras são
As cores que abracei
E o abraço, de tão forte,
Não tem separação
Pra mim, o meu Sport
É religião
A vida a gente vive
Pra vencer Sport, Sport
Uma razão para viver


http://br.youtube.com/watch?v=fxuYuWEYc5o

Treze de Maio,
Mil novecentos e cinco
Dia divino em que Guilherme de Aquino
Reune, no Recife, ardentes seguidores
Fundando esta nação de vencedores
Que encanta, enobrece e dá prazer Sport, Sport
Uma razão para viver

Eterno símbolo de orgulho
É o pavilhão
De listras pretas e vermelhas,
Com o Leão Erguendo,
imponente, o imortal escudo
Mostrando à gente que o Sport é tudo
Que a vida tem de belo a oferecer
Sport, Sport Uma razão para viver

São gerações e corações
Fazendo a história
São campeões e emoções
Tercendo a glória
Do bravo Leão da Ilha, Sport obsessão
Que faz bater mais forte o coração
Torcida mais fiel não pode haver
Sport, Sport Uma razão para viver

Sport! Sport! Sport!

http://br.youtube.com/watch?v=OdiA91etbjM

http://br.youtube.com/watch?v=697NLEKfyks

Agradeço à Ceça a colaboração. Valeu, Cecita!!!!



Eita! No Brasil é dia...

...dos namorados:





Uma homenagem ao meu...

"Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino - o amor. (...)" (Carlos Drummond de Andrade)

Lá vem o sol

"El sol fogoso de junio desabrocha las camisas, fulmina los calcetines, destapa los ombligos y recorta los pantalones. Ahora no sólo es el espejo del baño el testigo de nuestro físico, sino que nos exponemos a las miradas ajenas que nos contemplan despiadadamente y nos obligan a tomar conciencia de nuestra piel enmohecida por las sombras del abrigo. El reflejo de las pupilas extrañas nos devuelve la verdadera estampa de nuestro cuerpo impúdicamente desfondado, vago y decepcionante." (Eduardo Verdú)

É assim que o escritor e jornalista Eduardo Verdú descreve a chegada do verão em Madri. Apesar de ainda estarmos na primavera, que diga-se de passagem tem sido mais fria e chuvosa do que o usual, o sol já dá mostras de que está vigilante, esperando uma brechinha para finalmente se impor no nosso dia-a-dia. Pois bem, comprovamos o relato de Verdú no último sábado. Fomos aos Jardines de Sabatini e à Plaza de Oriente. Um lugar belíssimo, cheio de vida, gente de toda parte do mundo, e mais um convite a um banho de sol. Lamentamos não termos feito um piquinique, bem ao gosto europeu, mas passamos uma tarde muito agradável. Iago corria de um lado pra o outro, brincava por entre os “labirintos” construídos com a vegetação, e eu não me cansava de tirar fotos para poder compartilhar com vocês aqui no Blog.



É impressionante como o sol é um convite às demonstrações públicas de afeto. Casais de namorados passeiam de mãos dados, expõem seus corpos pouco cobertos e aproveitam para se banharem nos lagos e fontes, presentes nas praças. Muitos se deitam nas gramas e ficam em estado de contemplação, sonolência, namoro, tudo como um ritual bem ensaiado de reverência ao “deus” sol, à natureza, e à vida em todo o seu deslumbre. Naquele solzão, me permiti ser menos estrangeira. Deitamos então na grama e aproveitamos o agradável e ensolarado dia.
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domingo, 8 de junho de 2008

Meu amigo, o violão












Meu lindo sobrinho João Marcelo, que ama me ouvir tocar, e meu amigo, o violão.


Quando disse pra Chico, meu antigo professor de violão, que viria para a Espanha, ele me disse: "leve seu grande amigo: o violão". Dito e feito. Não sabe ele que deixei meu amigo no canto, meio abandonado. Até que, há dois meses, num belo dia, indo a Moncloa resolver a papelada da minha futura Universidade, dei de cara com a "Casa do Brasil" e uma faixa: "clases de guitarra brasileña". Pensei, se ensinam guitarra e do tipo brasileira, devem ensinar violão e, com sorte, a tocar música brasileira. No meu parco espanhol, não sabia eu que era justamente isso que a faixa dizia: violão em español é guitarra, e ensinavam justamente a tocar música brasileira. E foi assim que conheci um outro amigo e professor brasileiro, há 30 anos vivendo em Madri, Urano Souza. Há dois meses que tenho classes com ele, mas meu violão normalmente só me faz companhia pouco antes das aulas e durante elas, motivo de uma bronca do meu professor ao observar claramente, pela agilidade dos meus dedos e a falta de calos nas mãos, que não tenho treinado como deveria. Depois das aulas, em geral, meu amigo, o violão, volta pro canto, e me observa blogar, fazer o serviço doméstico, ler, cuidar de Iago, estudar español e tudo o mais que me parece hoje mais urgente para a nossa adaptação aqui. Assim, apesar da proximidade, sinto saudades dele, mesmo aqui, do meu ladinho. Sou uma amiga ingrata e ausente. Meu violão me acompanha desde os meus 14 anos, quando o recebi de presente da minha mãe, exímia tocadora de teclado e minha maior incentivadora artística. Tem um som bonito e diferenciado, está meio velhinho, é verdade, começou a trastejar e necessita de cuidados especiais. Daqui a 15 dias, vou visitar a terrinha e ele me acompanhará de volta. Quem sabe será uma nova fase do nosso relacionamento, e voltamos a nos divertir juntos de novo. Não vejo a hora. Acho que ele também não.

"Certo dia encontrei-me com um amigo
que deixou-me contar minhas tristezas
Vendo nele ternura e sutilezas
Nos abraços que dele fiz abrigo

Mesmo hoje, depois de tantos anos
Nosso amor continua assim perene
Eu querendo que ele me envenene
E ele sendo o veneno dos meus planos

Amizade igual nunca encontrei
Pois às vezes que eu o pocurei
Estendeu o seu braço em minha mão
O amigo que falo não é gente
É divino e pra mim foi um presente
Que o tempo me deu, meu violão"

Do Poeta Zeto, de São José do Egito. Contribuição de Aloisio Arruda, outro grande amigo, que me mandou o cordel. A ele dou Gracias!





..........................................................................................Meu amigo e professor no Brasil,Chico

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A esperança. Desta vez, o inseto. Ou quase.

"Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede.
Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho
e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede.
Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim. Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo. Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança.
Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz.
Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer.
Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo. Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la. Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. "

Ah! Clarice... Sempre ela.
Lispector in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

Aos 82 anos, segues bela, elegante e desejável...

Lendo o El País , vi o seguinte parágrafo:

"Acabas de cumplir 82 años. Has encogido seis
centímetros, no pesas más de 45 kilos y sigues siendo bella, elegante y deseable. Hace 58 años que vivimos juntos y te amo más que nunca". Así comienza la maravillosa carta en forma de libro que el filósofo y periodista André Gorz escribe a su mujer, Dorine, pocos meses antes de que los dos apareciesen muertos en su casita de Vosnon, en Francia. No hubo dudas de que se trató de un suicidio compartido: ante la enfermedad terminal y los sufrimientos de ella, decidieron poner punto final a sus vidas.

Num mundo “líquido” como o nosso, surpreendi-me com a matéria. Explico-me. Zygmunt Bauman tem falado sobre o medo das pessoas, na sociedade pós-moderna, chamada por ele de “líquida”, de estabelecerem relações duradouras. Os laços afetivos têm cada vez mais dependido de uma conta de custo-benefício, como se fosse um produto de consumo rápido. Nesse contexto, ele fala que os laços de solidariedade parecem depender dos benefícios que geram; o amor ao próximo, um dos fundamentos da vida civilizada, aparece, portanto, distorcido e desvalorizado. Interpreta a sociedade atual como uma sociedade de mercado, onde tudo é consumível e, quem não adere à onda é incompreendido, considerado conservador, não aceito. Assim, o cool é quem está experimentando relações novas, sensações novas, conectando-se e não se relacionando realmente.

Bueno, ao ler o romântico e quase Shakespeareano relato sobre André Gorz, a esperança pousou em minha casa. Não o inseto do conto de Clarice Lispector, mas a outra, aquela que nos enche de expectativa de que amanhã pode ser melhor do que hoje. É... Amanhã será melhor que hoje. Ainda existem alguns André Gorz entre nosotros...
E que este descanse em paz. Ele merece.

http://br.youtube.com/watch?v=VaoOK1MyGNE&feature=related

Soneto da fidelidade (Vinicius de Moraes)

De tudo, meu amor serei atento
Antes,
e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

La Fuente del Angel Caído

Agora, sim, seguem algumas fotos, finalmente. Aos desavisados, ler o Anjo Caído logo abaixo. Recomendo ainda ler os comentários, pois está lá um poema de Lorca, lindíssimo. A ver...



terça-feira, 3 de junho de 2008

O anjo caído

Madri é a única capital do mundo que exibe um monumento em praça pública com a imagem de Lúcifer: o Anjo Caído ou Fuente del angel Caído, de Ricardo Bellver, de 1877. Segundo a Bíblia, Lúcifer foi expulso do céu por rebelar-se contra Deus, lembra? Pois bem, a escultura fica no Parque do Retiro, o parque mais famoso de Madri e um dos mais bonitos. Pois bem, estava eu a pensar, cá com meus botões, por que cargas d´água, com tanto lugar no mundo, aquela escultura foi parar justo nesse Parque...?! Um pouco mais de reflexão. Lembrei-me da sensação de estar nele em dia comum (leia-se: com pouca gente e dia não festivo)... É. Lembra mesmo o paraíso. É muito bom deitar em sua grama, ler um bom livro na sombra de suas árvores, flanar, ficar em estado contemplativo. Tudo isso fiz na minha imaginação, que fique bem claro, afinal, não tenho tempo pra nada, vida de dona de casa é fogo - bem que minha mãe disse pra eu começar a estudar logo, pra não ficar eternamente cheirando a cebola: "tu vais envelhecer, sem tempo pra sair, se cuidar, aproveitar a cidade, etc., etc., etc."; ela estava certa. Voltando. Levei minha sogra lá no bendito Parque, quando ela estava por aqui. Religiosíssima, achou linda aquela estátua do anjo sofrido. Até então, nenhum de nós sabíamos do que se tratava. Tirei fotos do anjo em todos os seus ângulos. Imaginem agora! Ficará sabendo pelo blog. O pior é que ela é queridíssima, de verdade!, nao foi por mal, só se foi o inconsciente do inconsciente do inconsciente, e Freud explicar mesmo. Ui! Pane. Agora me deu medo. O computador deu uma parada e perdi uma parte do que eu escrevia... Não tendo dedicado nenhuma parte desse blog a Deus, bateu a culpa por ter me entusiasmado tanto com o tal anjo, sabe? Hora de dormir. A lo mejor... de rezar um terço. Por que tinha que ter esse anjo logo em Madri?! Pra quem não me conhece, estudei minha vida toda em colégio religioso, e a tão famosa culpa católica me persegue até hoje. Livrai-me, senhor!, até em Madri?!, ou, principalmente em Madri! Depois blogo a foto do "anjo". Ficou curioso(a)? Vá rezar um terço você também, que é melhor.

O marco zero de Madri





Adoro ir a Puerta del Sol, o “marco zero de Madri”, por assim dizer. É uma das regiões mais antigas da cidade; um lugar maravilhoso, onde há vida quase todas as horas do dia e da noite. Conta-se que por volta do século XVI, havia uma grande muralha com um portal que delimitava a cidade, e que havia um sol que adornava a entrada, por isto, esse nome. É também aí que se pode observar uma estátua com o símbolo da cidade, El Oso y El Madroño: o urso e o Madroño, este último nomeia uma árvore típica da Península Ibérica, encontrada abundantemente em Madri. O urso, por sua vez, é um símbolo da cidade, pois a região era habitada por muitos ursos no passado, chamada pelos romanos de zona Ursária. O culto à natureza é bem representativo daqui e bastante apropriado, pois Madri é cheia de parques, espaços públicos floridos e bem cuidados, a cidade é um convite a passeios e longas caminhadas. Portanto, sapatos confortáveis, um bom mapa e uma câmera fotográfica na mão são indispensáveis - sempre amei usar salto, mas aqui os tênis são minha melhor companhia. Voltando, é também na Puerta del Sol que encontra-se um outro monumento imponente, Carlos III em seu cavalo. Más adelante, dá-se de cara com a Plaza Mayor e outro monumento, este representando Felipe III, e foi ali fixado no século XIX. No passado, a Plaza Mayor era circundada por mercados e foi palco de numerosos atos públicos, como corridas de touros, autos de fé, execuções, e, por fim, a santificação de San Isidro, patrono de Madri e santo protetor dos agricultores de todo o mundo. Hoje, a Plaza Mayor, como toda a Puerta del Sol, é um grande centro de entretenimento, com bares, restaurantes, lojas, muitos artistas e seus mais variados “espetáculos” de rua, muita gente andando de lá para cá, indo de copas, como dizem aqui. Ir de copas, nada mais é do que sair de bar em bar, por isso mesmo, os madrileños são chamados de gatos – notívagos e inquietos. Bueno, creio que esse é o ponto zero, o ponto de partida pra conhecer Madri. Daí, da Puerta del Sol, você pode estender seus raios pela cidade; uma cidade histórica, ensolarada e cheia de atrativos.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O que há de bom na solidão





Na minha primeira semana aqui, Antônio me sugeriu algumas maneiras de me divertir sozinha, flanar, ler, tirar muitas fotos dos espaços públicos ou do que eu achasse interessante, conhecer a cidade e, quem sabe, descobrir "o que há de bom na solidão!". Para quem não sabe ainda, Antônio é um primo-irmão, responsável por alguns comentários neste blog, e, ao lado da minha irmã, Christianne, que foi quem realmente me sugeriu fazer o blog e me mostrou como, foi também um grande incentivador. Bueno, voltando, é verdade que estou em Madri com marido e filho..., é verdade também que a maior parte do dia estou sem eles, e, em algumas semanas, o marido viaja - como esta, por exemplo.

Bem, ao longo de uma semana quase que inteiramente só, mantendo uma conversação de mais de 10 minutos apenas com uma criança de 6 anos, acho que posso dizer que descobri o que há de bom na solidão: escrever!!!! E é maravilhoso ver algum comentário blogado, pois "já não me sinto só, tão só, tão só... com o universo ao meu redor...".
http://br.youtube.com/watch?v=1349abSk-YA

"Tarde, já de manhã cedinho
Quando a névoa toma conta da cidade
Quem pega no violão
Sou eu, sou eu
Pra cantar a novidade
Quantas lágrimas de orvalho na roseira
Todo mundo tem um canto de tristeza
Graças a Deus, um passarinho
Vem me acompanhar
Cantando bem baixinho
E eu já não me sinto só
Tão só, tão só
Com o universo ao meu redor"

Maravilhoso mesmo foi, há pouco, ouvindo-me blogar o endereço do youtube de "Universo ao meu redor", de Marisa Monte, meu filho se lembrar e cantarolar outra letra dela, que estávamos ouvindo no carro ainda hoje e que é uma das preferidas do meu marido, Demetrio:
"só nao se perca ao entrar,
no meu infinito particular" ...
mais apropriado impossível. Mesmo sem querer, Iago se transforma, então, no co-autor desse texto. Filhos, melhor tê-los!
http://br.youtube.com/watch?v=qWSEZUHlhNI

"Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou portabandeira
de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular"

A estrangeira e as maquininhas

É impressionante como aqui tem maquininhas para tudo. Aquelas maquininhas eletrônicas, sabe?! Umas têm salgadinhos, outras têm refrigerante, água, café, chá; sem falar naquelas que vendem bilhetes de metrô, trem, essenciais para quem quer se deslocar por aqui; ah! ainda têm as máquinas para pagar os estacionamentos subterrâneos, que são públicos, porém, pagos em sua maioria através delas. É verdade que no Mundo de lá também temos uma população eletrônica grande, mas, em alguns casos, também temos gente de carne e osso que pode fazer o serviço, ou, pelo menos, ajudar, resolver algum problema. Enfim, por mais que tenhamos também as ditas maquininhas lá, não é de forma tão generalizada como aqui. Pois bem, para os pouco familiarizados com esses aparatos tecnológicos da modernidade, que é o meu caso, é um inferno. O mais constrangedor é a fila que se forma, em geral com figurinhas muito apressadas, que não lhe dão a oportunidade de conhecer mais profundamente aquele troço, e ficam olhando pra você pensando que você é tapada ou, a lo mejor... só podia ser estrangeira! Até você compreender como aquela geringonça funciona, é um nó, até porque cada uma tem personalidade própria e se comporta de um jeito. Claro que meu filho, de 6 anos, dá de 10 a zero em mim, mas não dá pra estar saindo com ele sempre, tem escola! E quando a tal maquineta esquece de te dar o troco? Ou, pior, rouba o teu último centavo sem te dar o produto?! É cruel! A quem reclamar?! Já imaginaram a cena? Uma estrangeira falando com uma máquina! E em português?! Sim, porque, na hora da raiva, não me ocorre nada do meu parco espanhol, además, está lá escrito que, além de español, ela pode falar inglês, alemão, polonês, chinês... tem que entender meu português!
Me ouçam! Sempre que possível, fujam das maquininhas, ou carreguem seu filho a tiracolo. É o meu conselho para andar em Madrid, a salvo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A linguagem

Numa revisteria perto de casa, um sábado à noite:
- Por favor, o El País de domingo?
- Como como?
- Repito
- Mas como? Hoje é sábado, não sabias?
- Sim, mas não tens também o jornal de domingo ?
- Claro que não!!!!! Sábado é sábado, domingo é domingo, só amanhã.
Quase que eu dizia: é que no Brasil a gente prevê o futuro, não sabia? Assim, a gente pode comprar um dia antes, etc, etc, mas faltou espirituosidade e sobretudo español para tanto.

No metrô:
Eu já estava muito bem acomodada, ouvindo tocar Garota de Ipanema, extasiada com a música, totalmente lisa - a essas alturas a última moeda já tinha ido parar no chapéu do excelente instrumentista - , sentadinha no meu lugar. De repente, uma senhora atrasada, chega apressadamente como quem, por pouco, não perdera o trem. Olhei para ela, imaginei-a cansada e de maior, como dizem aqui. Levantei-me e ofereci meu assento. Ela, que não entendeu as palavras, compreendeu o gesto, respondeu com cara amuada: - Não, não sou tão velha assim. – Voltei para o meu assento, e já estava amarela sem saber se aqui não é hábito oferecer assento a pessoas idosas, enfim. Depois disso, já presenciei outras cenas do tipo e foi absolutamente natural o aceite, essa senhora sem dúvida estava passando por alguma crise de meia idade, e a vítima foi a pobre da estrangeira.

Outro dia, na escola de Iago:
- Necesitamos de una cita despacio.
E eu, que já não era besta nem nada, fiquei na minha, mas estava tentando descobrir de que espaço ela estava falando. Assim, escrito, é fácil, no entanto, vai ouvir!!! Me ocorreu o espaço sideral, mas o "Mundo de cá" pode estar à frente do nosso de lá em algumas coisas, mas não ainda a esse ponto, reuniões espaciais para se falar sobre crianças?! Conversando com meu professor de espanhol, ele disse que era óbvio que eu tinha entendido errado e que possivelmente ela queria dizer despacio, ou seja, mais demoradamente, uma conversa com mais tempo. Fiquei mais tranqüila com a descoberta e principalmente por ter pago o mico reservadamente.

Ainda em outro momento, comprando churros:
- Tiene coca?
- No, no tengo cocaína!, pero tengo coca-cola, si quieres...
Desta vez, era óbvio que o distinto cavalheiro queria soltar apenas uma gracinha, mas estrangeiro que é estrangeiro é meio sensível, com esses deslizes vivenciados quase diariamente.

Eita, que "nóis" sofre. Pense! Estudei minha vida toda inglês para não passar por isso. Fazer o quê? Só... rindo!

domingo, 25 de maio de 2008

Futebol, paixão internacional

“Si tanto nos gusta el fútbol es por lo mucho que se parece a la vida o a la promesa de felicidad”.


Para um apaixonado por futebol, vir a Madrid e não ir ao Estádio Santiago Bernabéu é o mesmo que ir a Pernambuco e não ir à praia. Pois bem, não fui uma exceção. No meu primeiro mês aqui, estava lá, prostrada, inicialmente inerte, diante de um belíssimo e impressionante estádio de futebol. A começar, uma escada rolante para subir ou descer – tem uma parte abaixo do nível das ruas – os 45 metros de altura, tudo muito limpo, policiado e organizado, banheiro impecável, assento para todos que, de onde estiverem, têm uma excelente visão do gramado. Bebida alcoólica dentro do Estádio é absolutamente proibido (nem tudo é perfeito), embora isso naturalmente diminua bastante a violência num ambiente que conglomera mais de 87.000 pessoas, já tendo tido capacidade, no passado, para 125.000 espectadores – isto quando a lei não obrigava a ter assento para todos. Bem, de qualquer forma, os bares nos arredores do estádio animam a festa prévia. À hora, Real Madrid e Valência começam a jogar e eu, super orgulhosa pelas estrelas da terrinha de lá: Robinho, Júlio Batista, Marcelo... Aos poucos, os gols e as comemorações inflamadas. Ali, somos todos torcedores, espanhóis, brasileiros, colombianos, uruguaios, peruanos, equatorianos, argentinos, romenos, bolivianos, surafricanos, quase todos, Real Madrileños. 2x1 para o Valência, de virada, e eu lamentei meu pé frio de estréia em terras espanholas, mas assim mesmo valeu a pena. Poucas semanas depois, Real Madrid confirma a vitória do campeonato espanhol com 3 rodadas de antecedência. Gol!

Outro dia, li um artigo no El País que dizia, entre outras coisas: “¿El fútbol? Si tanto nos gusta el fútbol a los aficionados es por lo mucho que se parece a la vida o, mejor, a las promesas de felicidad que la vida podría sembrar sobre nuestra biografía y de una manera tan sencilla como la de pasar a una semifinal. Contemplar el partido ganado, presenciar la escena, hallarse sentado ante los 90 minutos o los 90 años, y disfrutar con los goles no sería otra cosa que saborear nuestro propio equipaje vivencial sometido, como las incidencias del encuentro, a las más azarosas y diversas circunstancias pero venciendo, al cabo, la dificultad. (…) Su equipo forma cuerpo con su aventura, los resultados puntean su felicidad o su tristeza, su decepción o su esperanza, y con una ventaja incomparable: cada temporada aparece como otra inauguración saneada, el viaje reiniciado desde cero para volver a probar.”

Como seria bom que todos, como no fútbol, tivéssemos uma segunda oportunidade. Muitos crêem que sim, eu duvido um pouco. Quase sempre, a oportunidade perdida é uma oportunidade perdida. Resta-nos, todavia, como nas partidas de futebol, a tão propagada esperança. Ah, esta sim, sobrevive. Mesmo depois.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

No mundo de cá tem Santiago






Muitos já ouviram falar do Caminho de Santiago de Compostela; ou leram a respeito, ou já o percorreram, ou sabem de um amigo que o percorreu, ou já o fizeram pessoalmente, ou, ao menos, visitaram a cidade. Pertencemos a esse último grupo. Fomos à cidade, e nos dedicamos principalmente a conhecer a catedral, do século XI, que se transformou com o passar dos anos no mais importante santuário da Europa depois da Basílica de São Pedro, em Roma. Pois bem, diria que Santiago nos convida a distintos olhares, dependendo do interesse e inclinação de cada um. Tem o olhar histórico, o olhar arquitetônico, o olhar aventureiro... Sem dúvida, o olhar religioso sobrepõe-se aos demais, afinal, a cidade leva o nome de São Tiago, apóstolo de Cristo, cujos restos mortais se encontram sepultados na catedral. Sim, mas não gostaria de falar da cidade propriamente, nem da catedral (são realmente belíssimas e valem muito a pena conhecer), mas de algo que me chamou particular atenção: os peregrinos. São uma visão à parte. Lamentei não ser eu mesma uma deles. Seus rostos bronzeados e fatigados, cajados na mão, roupas em geral suadas e amassadas, mas o mais impressionante: levam no olhar uma certa serenidade e um sorriso de vitória por uma descoberta incompreendida por nós, simples mortais, que ali estamos, bonitinhos e perfumados, caídos de pára-quedas na cidade. Eles são os únicos verdadeiramente não anônimos na multidão que se forma. Também chamam atenção pelo ritual cumprido de forma emocionada até a chegada ao altar para abraçar a imagem pétrea, sentada e serena de Santiago, na catedral. Conta-se que a origem do abraço à imagem do Apóstolo passou a ser adotada como coroação da vitória do peregrino, que, havendo cumprido com suas obrigações, penitência, meditação e desapego material, reconcilia-se com sua própria fé. Após o abraço, procede-se à visita ao sepulcro. Aqueles que fazem o caminho com o objetivo do reencontro espiritual, dizem perceber a transformação ao longo do trajeto, quando o cansaço, os laços de cumplicidade criados com outros peregrinos, a generosidade que se instala e a atmosfera mística passam a ser mais fortemente sentidas. Sin embargo, numa das minhas peregrinações pelo Mundo de cá, gostaria de vir a ser uma peregrina. O nome do meu filho origina-se do nome do santo e, por isto mesmo, ele acabou por merecer uma bênçao especial do padre na nossa visita à catedral. Bueno, quem sabe, meio caminho andado.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Meditações de um notívago


No dia 18 de março deste ano, recebi esta carta-email do meu pai. Fazia menos de um mês que havíamos viajado.
Na íntegra, segue:

"Levantei-me no meio da noite. A lua batia no mar com sua brancura, inerte, contrastando com a mobilidade das ondas. O mar, insondável, a separar povos, nações... A lua, pairando sobre tudo, numa banda do mundo, vigilante. A brisa marinha, de fora para dentro do mar, o “terral”, causava-me fadiga. Pensei como vocês estariam, do outro lado do mar, prestes a acordar, devido ao fuso horário. Eu, ainda teria muitas horas para ver a luz do sol, me despedindo da lua. As palhas dos coqueiros não davam sinal de vida ondulante: viçosas, mas imóveis. Pelas janelas, sem para-peito, começava, sem vento, um “toque-toque”, que pensei ser do ar condicionado do apartamento superior, cuja água cai sobre o meu ar condicionado e faz aquele barulho. Na verdade, era, mas também, de uma chuva que começava a dar seus sinais. Nem um apito do guarda noturno, que guarnece a área. Senti a fragilidade dos seres: àquela hora, quem poderia estar pensando em mim? Um insone, talvez, assim como eu, estaria acordado. Pensei na necessidade da amizade que muitas vezes desprezamos e meditei: um inimigo, acordado a esta hora, poderia também pensar em mim. Como não o tenho, só poderia apelar para um amigo acordado. Porém, não seria justo desejar que um amigo fosse puxado na madrugada para voltar seu pensar para mim. Pensei, mais uma vez, em vocês: acordariam daqui a pouco e não seria injusto o desejo de puxá-los para meu mundo, acordariam naturalmente. Nesse acordar, poderiam voltar o pensamento pr´as coisas distantes, atravessando a amplidão do mar e pousar ali, naquele coqueiro, em frente ao apartamento. Depois, pensamento, como veio, voltou a se concentrar em outros e coisas diversas, mas já tinha invadido o meu universo. Dei de olho no canto da parede: a bicicleta de Iago, ainda não consertada. O tempo continua a girar e os encontros e desencontros serão sempre uma constante na natureza e, na natureza humana, a duração de cada vida. Liguei a televisão, embalado neste pensamento, voltei a dormir. Vocês acordaram e eu, dormindo; com vocês, só poderei sonhar. Acordei e reli o escrito. Não achei grande coisa, mas à mingua de algo melhor, envio-o. Com um piparote no teclado do computador, me despeço. Um abraço a todos. Amanhã em Abreu e Lima é feriado. Prejuízo pr´a mim, na certa. Mas, que tem a vida de feia? Ela é sempre bela!"

A estrangeira finaliza: Que saudade!! Segue a música que ele cantava para mim, na infância. Imitei-o e canto para meu filho Iago hoje, e é uma de suas preferidas (Prece ao Vento).
http://br.youtube.com/watch?v=FTWFvILrYzU

domingo, 18 de maio de 2008

Ser estrangeira é fazer churrrasco na chuva (lluvia)



Hoje, o marido decidiu fazer churrasco brasileiro. Bueno, muito menos estrangeiro que eu, iniciou a empreitada embalado ao som do inglês Rod Stewart e logo mudou para o pop-rock norueguês do a-ha – quem tem mais de 30 deve lembrar de ´Take on me´,´You are the one´ e outros que embalaram os anos 80. Pois bem, o sol estava ótimo. Nas ruas as pessoas davam os ares de sua graça de braços de fora nas terrazas dos bares e tudo o mais. Rod Stewart começou a tocar naquele solzão, muita animação, logo o pernil de cordeiro, lingüiças, picanha española saborosa (apesar de não ser argentina), e tudo corria às mil maravilhas... Foi só o a-há e “Celice” romperem o terraço de casa que, de repente, aquele famoso “toró”! Pense! A referência à Noruega foi fatal. A mudança de clima de forma repentina é famosa em Madri, uma mudança de 10 graus no mesmo dia é considerada absolutamente natural, por isso, muitas vezes saímos de casa com roupa de verão, mas já aprendemos que um casaquinho na mão ou amarrado na cintura é indispensável, afinal, segundo dizem no mundo de cá, “abril lluvias mil”. Mas como brasileiro não desiste nunca, logo improvisamos para darmos continuidade ao churrasco. O sol a essas alturas foi tocar em outra freguesia. Decidimos também algumas mudanças de percurso. De cerveja para uma boa cidra Andaluza, e por fim o vinho gallego Albariño, sem esquecer da providência imediata: calar a boca do pobre a-ha, atrás de algo más caliente. A estrangeira não tarda a colocar um bom forró de Elba. Como tudo é uma questão de perspectiva e nada é perfeito, churrasco na chuva também pode ser muito agradável. Porém, com a-há, never more.


Celice

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor




Além de um grande reencontro com pessoas, a Galícia foi também um reencontro com o MAR. Quem viveu toda uma vida vendo as ondas irem e virem e passou um tempo sem essa visão é possível que compreenda a importância desse reencontro. Um reencontro que transcende o banho de mar em si ou o banho de sol, sim, pois no mundo de cá felizmente também tem um belo céu e sol na maior parte do ano, mesmo no inverno – es increíble, um frio de lascar (para nosotros) e um solzão. Bueno, voltando ao tema, a sensação é muito mais do que muitos possam imaginar. Não interessava tomar um banho de mar, muito menos no gelo que a água estava, nem esperava me reencontrar com a cerveja estupidamente gelada servida na beira da praia, ou com o caldinho de feijão, ou mesmo com nossa música a tocar nas semi-carroças que vendem cds piratas, descaradamente (embora, Ivete Sangalo surpreendemente estava a tocar num bar das proximidades). Mas a linha do horizonte, sem o mar, facilmente encontra um limite, algo que se interpõe à nossa frente, ora um prédio, ora uma árvore (desgraciadamente, cada vez mais rara de se encontrar), ora as nuances de uma estrada que não tarda a ensinuar outras construções. Enfim, sem o mar, a finitude está ali, a nos lembrar das nossas limitações. Diante dele, os nossos problemas são pequenitos, aconteça o que acontecer, as ondas seguirão seu curso. Não tive dúvidas, tirei os sapatos e num frio de uns 14 graus pus meus pés na areia a esperar. De repente, gelo e sal! e contraditoriamente a grande sensação de liberdade. E os pensamentos se transportaram a outros mares, num mundo sem fronteiras, quisera eu ser uma maratonista neste momento. Já viajei. É; os pensamentos se perdem mesmo naquela imensidão. Ou se acham.